Mundo gira e a bola rola

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Histórias por onde a bola rolou, às vezes a favor, ora contra a rotação de sua mãe Terra, até chegar por entre gerações aos pés de cada infância.

Mais conhecida por “Bola de meia”, a bola de pano rolava macia e silenciosa, como um astro qualquer que cumpre sua rota. A massa celeste que carregava em seu núcleo cuja matéria era composta de meias velhas e retalhos de  colchas e fronhas, lá de onde vinham os sonhos já sonhados pelos meninos da rua de paralelepípedos.

Jogar bola na rua era literalmente jogar em casa. Conhecíamos os buracos e as saliências palmo a palmo das pedras. O difícil era driblar não só os adversários, mas a cachorrada que insistia morder a bola e fugir com ela.

Não me canso de lembrar, aqui na vila da bola, no bairro de futebolistas, a nossa Vila Madalena teve três campos de futebol e inúmeros times da redondeza, tais como o raçudo Leão do Morro, Sete de Setembro, 1º de Maio, Estrela de Pinheiros, o Vasquinho e mais alguns que não chegaram a se formar. Resistiram até o final da década de 60, quando foram aos poucos extintos.

O mundo girava mais lento, assim como nossa bola de pano. Tento lembrar de um mundo já remoto onde não havia tantos controles remotos ou nenhum, muito menos internet ou celulares. As mães hoje telefonam para os filhos entrarem, ou para jantar, antes era tudo no grito, mais interessante sei lá, os nomes dos meninos trançavam as ruas de lado a lado em ecos de: “Vem jantar! Hora do banho! Seu pai chegou!”…

Depois as mães cuidavam de nossos hematomas com “Violeta Gengiana”, um bálsamo para os seus pequenos guerreiros da rua e uma colher de sopa de Biotônico Fontoura, um pouco do seriado do Bat Masterson ou girando o seletor de canais para ver a luta livre do temível Phantomas e achávamos meio veado o magrelo Ronnie Von jogando aquela franjinha de lado segurando com fervor o microfone, depois ir de baixo dos cobertores Parahyba e sonhar que os peitos de Claudia Cardinale eram os nossos travesseiros.

O ciúme da bola de pano não tardou a chegar. Sim, o ciúme murcha, enruga e achata. Assim ficou nossa bola quando chegou a “Bola de Capotão”. Couro marrom, maior e pulava mais. Tínhamos que passar sebo nas costuras e no couro para não rachar. No grupo escolar havia a bola de salão, pequena e dura. Recheada com crina de cavalo.

Mundo gira e a bola rola. Lembro sempre daquela bola de pano. Os sonhos que se fez sonhar, os gols que não fez e a história que contou sob nossos pés, às vidraças que quebrou e as rotações que deu em torno de si e ao redor do Sol, na rua incolor dos moleques coloridos.

pedrocosta.pira@uol.com.br

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