“Imigrantes são bem-vindos!”

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Em busca de melhores condições de vida, haitianos, africanos e sírios escolheram o Brasil para imigrar. Para entender essa questão, entrevistamos Rita du Val, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Santa Marcelina (FASM), na Unidade Perdizes.

 

Ela lança uma provocação: “Quem pode afirmar que é 100% brasileiro?”. Ela mesma se declara descendente de portugueses e acredita ser difícil encontrar, entre os brasileiros, aqueles, exceto os indígenas, que não sejam filhos, netos ou bisnetos de imigrantes que vieram para o Brasil. A lei de imigração do país, segundo Rita, precisa ser atualizada. “A lei atual é do tempo da ditadura militar (1964-1985) e, além das muitas barreiras, é excludente, e dificulta o acesso do imigrante”. Ela lembra que, por ocasião da Copa do Mundo de 2014, o  Brasil se apresentava no exterior como um país aberto a todos. Mas quando o imigrante resolve vir para cá, ele se depara com uma série de barreiras. E esses imigrantes estariam optando pelo Brasil por conta das restrições de acesso impostos pela Europa, principalmente a França, que alega conter esse fluxo por um problema de segurança nacional e por se tratar de tráfico de pessoas. “Mas por que punir as vítimas? Os imigrantes devem morrer no mar? Com as dificuldades para entrar na Europa, os imigrantes buscam destinos mais fáceis, como o Brasil”, pondera a professora.

Para ela, “o Brasil tem o dever histórico e moral de receber esses imigrantes. Somos um país de imigrantes. Somos um país formado por grandes fluxos migratórios importantíssimos – português, africano, italiano, japonês, árabe. Portanto, o Brasil tem um dever histórico de ter uma legislação migratória mais coerente com sua própria história”, justifica sua tese.

As três maiores imigrações que aqui chegaram nos últimos anos são formadas por haitianos, sírios e africanos. A professora explica que há diferenças entre esses imigrantes. Ela explica que os haitianos, por conta de tratados assinados pelo Brasil, que tem uma missão de paz naquele país do Caribe, “chegam aqui com um visto humanitário. Eles pedem o visto no consulado do Brasil no Haiti e chegam devidamente documentados. Mas há denúncias de corrupção e venda desses vistos lá no Haiti”, informa ela. Ela conta que, para chegar ao Brasil, muitas famílias se cotizam para financiar a viagem a um integrante familiar  – que vem para cá com a missão de mandar dinheiro para os que ficaram e também facilitar e preparar o terreno para outros que virão.

“A situação econômica e política do Haiti é muito grave”, lembra a professora. “No Haiti, não há trabalho e os índices de violência são muito altos”. Ela conta que entrevistou haitianos que relatam que, se voltarem ao Haiti, não poderão viver em seus bairros, por correrem riscos de serem sequestrados por gangues, por pensarem que eles ficaram ricos. “Esse problema é causado tanto no Haiti como na África e na Síria pelas atuais políticas colonialistas que favorecem o crescimento da violência e a desigualdade entre ricos e pobres.”

Por outro lado, os sírios e os africanos chegam ao Brasil como refugiados políticos. “Assim que entram com o pedido, a Polícia Federal emite o protocolo do Registro Nacional de Estrangeiro (REN). Com ele, é possível tirar outros documentos como identidade, carteira de trabalho. E mesmo que o pedido seja negado, o imigrante pode recorrer à decisão. Como o Brasil, por tratados assinados, não pode ‘devolver’ o imigrante para seu país de origem, ele acaba ficando por aqui. Se casar ou tiver filho, fica mais fácil!”, lembra Rita.

Ao contrário do que se pensa, informa a professora, muitos dos imigrantes que chegam ao Brasil têm formação acadêmica. “O problema é que um haitiano formado lá precisaria validar seu diploma aqui para poder trabalhar na profissão. E isso é complicado, aqui ou em qualquer outro país do mundo.” Então o imigrante aceita qualquer trabalho: “Na verdade, aqueles que os brasileiros muitas vezes não querem mais”, diz Rita.

A integração dos imigrantes com a população é fundamental para eles. “Quanto mais rápido isso ocorrer melhor”, lembra. “Tanto para aprender a língua portuguesa como os costumes do país. Os imigrantes não podem ficar só em seus guetos”. As crianças, por frequentarem as escolas, são as que mais rapidamente aprendem o idioma, depois vem o pai e depois a mãe. “E quando o imigrante abre uma loja ou algo assim, geralmente utilizam a própria família como mão de obra. Eles precisam se relacionar com os clientes”, diz.

O imigrante, por trazer sua cultura diferente, é alvo de preconceito. Acontece aqui e em qualquer outra parte do mundo, lembra Rita. Mas ela faz questão de lembrar que essas pessoas, com seus hábitos e culturas, contribuem para a nossa sociedade. “Não há razão para preconceito. Lembro que breve o Brasil, que está envelhecendo a cada ano, assim como a Europa, vai precisar de um número considerável de imigrantes para a sua prosperidade”, conclui. (GA)

 

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