Dez/19 — Pedro Costa — Vejo o Cristo na janela

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Entre os prédios da frente e os demais ao lado do meu, algumas janelas já piscam incessantemente para o Natal. Pequenos pinheiros coloridos nas varandas parecem trocar piscadas umas para as outras nas noites de flertes da Vila Madalena. Faço um reconhecimento visual a este recém-chegado endereço. Lembro que moro neste bairro há quarenta anos. Das ruas quando cheguei, das pequenas casas de muros baixinhos, roseiras nos jardins, dos moradores cumprimentando com bom dia uns aos outros, as casinhas singelas que foram dando seu lugar às novas sombras nas ruas, com seus arranha céus lado a lado apontam como única saída para cima e não mais ao lado.

Entre uma lembrança e outra reparo em famílias reunidas ao redor de uma mesa jantando, outras vendo televisão, outras solitárias fumando seu cigarro imaginando sua fumaça se misturar com as nuvens e o pensamento longe, nas alturas, enquanto o abobado aqui passeia o olhar pelas janelas, imaginando o que poderiam estar conversando, ou simplesmente mudos, atentos ao noticiário, novela, novelos, celulares ou outros males, sabe-se lá. Quando avisto, surpreso, na janela do prédio da frente, talvez seja por esse clima de dezembro, a aproximação do natal, veio atentar esse incrédulo sujeito… Vejo o Cristo na janela!!! Uma alegria inesperada encheu meu coração, enquanto eu só pensava; Olha, é o Cristo mesmo! Então é aqui que Ele mora? Sempre o vejo nas ruas da Vila, juro. Foi reconfortante vê-lo tão próximo. Muitas vezes paramos numa calçada e conversamos, há muitos anos. Ele ainda não sabe, vai saber onde agora moro. É o ANTHONY CRISTO, um jornalista premiado, sujeito brincalhão e tranquilo, mesmo por tudo que passou, escreveu e escreve muita coisa boa. Presenciou o calvário do amigo e trabalhou junto com Wladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar, e por ela também foi preso com os colegas Paulo Markun, Duque Estrada, Rodolfo Konder, e outros tantos perseguidos e torturados pela insana ditadura, que tristemente ainda hoje tem gente que pede e prega o retorno daqueles tempos sombrios.

Caro Cristo, bom saber que você está por perto. Precisamos de você,não apenas em dezembro. Feliz Natal, meu amigo.

pedrocosta.pira@uol.com.br

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