Pedro Costa — Cinzas ao mar

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Já fiz vários casamentos, com meu velho carro/hotel Galaxie 500, transportando noivas da casa ao altar, de lá para o aeroporto ou hotel. Nesses casamentos, às vezes até chorava junto com o pai da noiva. Tomei muito espumante e comia bem nas festas destes enlaces, estava eu ali com os noivos, junto na dureza e na alegria. Quando o órgão da igreja soprava aqueles canudos imensos, as portas se abriam e a noiva entrava. Quantas vezes eu casei junto!… Mas, essa é outra estória.

Ulisses, meu amigo lá de Ubatuba, havia feito um pedido com o qual contava com meus préstimos e zelo. Meio sem graça de me pedir, rodeou e acabou dizendo que para mim, pela amizade de muitos anos tinha coragem de pedir. De pronto o atendi. Arrumamos a pequena embarcação por lá, pediu-me que fosse com ele jogar as cinzas de seu falecido pai, o velho Laerte no mar. Logo de manhã faria com o amigo Ulisses tal empreitada. E assim foi feito. Zarpamos. A capitania dos portos já avisava sobre os ventos fortes apesar de antever que o tempo estaria firme até à tarde. Lá fomos nós. “Capitão, içar velas!” Bradou Ulisses da proa. A caixa de isopor já estava a bordo gelando ‘brejas’ como se fossem champanhes, anexo uma garrafa de Rum Montilla, que a cada gole e golfadas de água salgada no rosto homenageávamos o ali jaz companheiro comandante, recém-retornado ao pó.

”Ali Pedrão, na Ilha do Prumirim, onde o velho gostava de ficar”. Aponta Ulisses com os olhos marejados. Ancorei. Pega a caixinha de cinzas. Mais um gole. Tenta abrir e nada. Chave de fenda. Tenta levantar a tampa e nada. Mais um gole. Eu quieto, o momento era dele. Ulisses avista uma pedra ao redor da ilha. Bate uma vez com a caixinha na pedra, duas e nada. Joga a caixinha na pedra e ela volta com tudo na sua boca e cai no mar. –“O pai é meu, eu pego”! Ulisses mergulha, volta com a caixinha que agora resolve abrir. Alívio. Mais um brinde. Os dois na proa. Ulisses ergue a caixa e vira para o mar. O Montilla embaixo do meu braço. Eis que um ventinho traiçoeiro bate na gente e nos dá o maior banho de cinzas. Eu gelei, fiquei imóvel como uma estátua cinzenta. Ulisses, nem aí. Emocionado arremata: – “Esse é o meu velho pai, gostava de tomar uma com a gente, né?”.

pedrocosta.pira@uol.com.br

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