“Chega de sujar os rios”

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Carolina Ferrés

Carolina Ferrés é designer gráfica e ativista por vocação. Criadora do Viva Rio Pinheiros, acaba de criar o Cidade Azul, para revelar os rios da cidade.

Carolina Ferrés é designer gráfica e ativista por vocação. Criadora do Viva Rio Pinheiros, acaba de criar o Cidade Azul, para revelar os rios da cidade.

Uruguaia de Montevidéu, Carolina está no Brasil há 30 anos. Aqui se formou em designer gráfica e trabalhou em revistas na Editora Globo até que resolveu dar “um tempo” para pensar no que queria fazer na vida. Daí surgiu o ativismo.

“Primeiro comecei a cuidar de calçadas e outras ações até que fiquei sabendo do Projeto do Parque Linear dos Corujas, ao qual me juntei”, conta ela. “A partir daí fui participando de outras ações semelhantes e criei, com outras pessoas, o Viva Rio Pinheiros e mais recentemente o Cidade Azul”.

O Viva Rio Pinheiros pretende conscientizar as pessoas de que elas não podem ficar jogando todo o tipo de lixo nos córregos e rios que cortam a cidade e vão desaguar no Rio Pinheiros. “Queremos que o Rio Pinheiros deixe de receber tanto lixo. Não adianta o governo fazer dragagens periódicas para retirar o lixo. É preciso não sujar mais!” Em agosto próximo está prevista acontecer uma exposição coletiva com artistas do grafite e da arte de rua, como Paulo Ito, Rodrigo, Bijari, Rauzito, Tiago Gomes e Primax. Os painéis serão expostos junto à ciclovia do Rio Pinheiros entre as pontes do Jaguaré e da Vila Olímpia. Será um dos eventos da Virada Sustentável da cidade.

Agora, Carolina está mais voltada para o projeto Cidade Azul, que ela e mais 13 pessoas deram início no final de maio. A proposta é promover caminhadas pela cidade para que as pessoas conheçam e tomem consciência do rio, córrego ou riacho que tem aos pés e pouca gente sabe ou tem consciência disso.

Carolina conta que “a inspiração para o Cidade Azul foi o projeto Rios e Ruas [criado pelo arquiteto José Bueno e pelo geógrafo Luiz de Campos Jr. para divulgar e informar os rios que a cidade tem e estão canalizados]. Reunimos 14 pessoas de diferentes áreas profissionais. Em uma semana colocamos a ideia em prática. O Zé Bueno, do Rios e Ruas, e o Lucas Mello, publicitário e sócio da agência LiveAD, coordenaram os primeiros passos”.

Para se manter, o Cidade Azul busca parceria com empresas e pretende promover caminhadas pela cidade, para que as pessoas possam conhecer principalmente os rios da cidade que estão canalizados em sua maioria. 

“Descobrindo” o Rio Verde 

A primeira ação do Cidade Azul aconteceu no último domingo de maio, com uma caminhada a partir do metrô Vila Madalena. Começamos com umas 30 pessoas e, no final, tinha um número muito maior. O “passeio caminhada” levou cerca de uma hora e teve fim na Rua Harmonia, onde o Rio Verde é visto pela última vez antes de seguir pela tubulação e desaguar no Rio Pinheiros. Um áudio, disponibilizado através do site – www.cidadeazul.org/audio_guia, descreve, em cada uma das dez paradas, o que deve ser visto ou percebido.

Com o áudio o caminhante segue os dez pontos assinalados pelo pessoal do Cidade Azul. Postes pintados de azul, além de bueiros e cartazes afixados pelo projeto, facilitam a localização. Para cada um dos pontos, há comentários, informações técnicas e de como eram esses ambientes antes da canalização do Rio Verde. A caminhada pode ser feita por qualquer pessoa.

A excursão, com aproximadamente 1,5 quilômetro, seguiu o Rio Verde a partir do metrô Vila Madalena pela Rua João Moura, depois seguiu pela Rua Abegoaria até a Medeiros de Albuquerque e finalizando, por conta do traçado sinuoso do Rio Verde, no Beco do Batman até o último trecho visível do rio, entre as ruas Rua Harmonia e Girassol. Nesse mesmo trecho, em dias de chuva muito intensa, o rio não dá conta e a região alaga. “Ultimamente não temos visto isso por conta da falta de chuvas”, lembra Carolina.

Entre as surpresas da caminhada, a garotinha que resolveu conferir com as próprias mãos a água que brota de uma nascente na Rua Abegoaria e corre por cerca de 30 metros até encontrar um bueiro onde ela vai chegar ao Rio Pinheiros através da tubulação. Um cachorro que acompanhava o grupo não se fez de rogado e matou a sede com aquela água transparente, que tem aparência de limpa mas não é recomendável sua ingestão, adverte o pessoal do Cidade Azul.

Um dos momentos interessantes do passeio foi o encontro do grupo com o senhor Antonio Alexandrino, morador há mais de 60 anos da Vila Madalena. Ele estava em frente à sua casa na Rua Medeiros de Albuquerque e a parada rendeu boas histórias. Ele afirma que já viu muitas enchentes em na rua e algumas afetaram sua casa. “As enchentes começaram depois da construção de alguns edifícios aqui. O problema só diminuiu quando a prefeitura fez obras na rua, no governo da Marta Suplicy”. Com animação, ele contou que conheceu o rio antes de ser canalizado e que tinha gente que pescava nele.

O grupo pintou o cimento que encobre a passagem do Rio Verde para dar uma sensação visual de que um rio passava aos nossos pés. Outras duas caminhadas estão previstas para acontecer nas próximas semanas. Basta ter disposição, um celular e um fone de ouvido para descobrir os rios que correm sob nossos pés. 

www.cidadeazul.org

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