A tampinha do leite

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Pedro Costa

Lá se vão madrugadas do passado. Depois de deixar as calças curtas e as meias três quartos, cada um cuidava da sua vida. Enquanto o amadurecer não vinha e o dia também, imperava a molecagem e o sereno na Terra da Garoa. Pular da cama mais cedo e acordar outros garotos cúmplices, para afanar litro de leite da frente das casas, com o critério de escolher apenas o das casas mais abastadas e com grandes jardins na frente. Virar em goles rápidos e por fim lamber a tampinha que selava o vidro de leite repleto de nata era sentir o nirvana dos néctares, fechar os olhos em pleno deleite ou delito do leite, mais branco que qualquer branco que há, e ainda devolver o litro vazio de volta, o que amenizava um pouco a culpa e nossa infantil cleptomania. Não havia ainda o pãozinho francês, nem saquinho plástico, só o filão de pão; a bengala que vinha embrulhada num papel rosado. Porém, nossa musa era a tal tampinha com a sua nata na parte interna. Assim chegando à escola e formando a fila de cada classe antes de entrar nas salas, muitas vezes nossos bigodinhos ao redor da boca nos entregavam aos demais colegas, que zoavam com nossas caras de pau, enquanto marchávamos orde-nhados em direção às baias do Grupo Escolar Marina Cintra, na mesma avenida que Tom Zé compôs: “Entre a Augusta e a Angélica, encontrei a Consolação”.

Os caminhões carregados de vidros de litros de leite passaram anos chacoalhando sob os paralelepípedos da cidade, pareciam brindes que tilintavam uns nos outros, despertando os galos e os meninos do bairro, avisando que a entrega começara. Aos domingos, um homem passava numa pequena charrete puxada por cabras e quem pedisse, na hora enchia garrafas com o leite delas mesmas, essas tampadas com rolha. Reconhecíamos que era domingo quando, ao passarmos pelas ruas, se ouvia os badalos dos sinos amarrados no pescoço de cada cabra. Época onde o sonoro era visual, o inverso de um filme mudo, cuja lembrança ainda é em preto e branco.

Hoje os litros de leite são todos de papelão silenciosos, perderam a voz. Graças aos moleques e aos boêmios de antigamente não mais são deixados diante das portas e, o pior de tudo, desapareceu a tampinha de metal, tão cheia de nata e graça de inesquecível sabor e textura, que pelos velhos tempos de hoje não trafegam mais, apenas pela memória daquela geração de moleques saudosos.

pedrocosta.pira@uol.com.br

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