Tilápias Uspeanas

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Emulsão de Scott, o pescador sinistro e seu grande peixe estampado na garrafa de vidro.É a imagem que me veio náufraga do passado navegando por um afluente do grande rio que é a lembrança que quase sempre deságua nesta última página. Para quem teve a sorte de não conhecer este remédio fortificante de gosto medonho que as mães de antigamente enfiavam goela abaixo na boca de seus moleques, em compensação quando era a vez do Biotônico Fontoura… Ah! Este sim, docinho e gostoso, foi inclusive o primeiro porre que inebriou este então jovem marujo da Pauliceia.
Surgia no começo da década de 70, quando notaram que havia lagos nas margens do rio Pinheiros, com nascente própria e acima do lençol freático, portanto isolado do rio, a Raia da USP. O antigo rio recuperava o que um dia teria sido, pelo menos naquele seu pequeno trecho, o lazer dos paulistanos. Outrora em suas margens, o rio Pinheiros chegou a reunir mais de 15 clubes de regatas. Hoje o rio tem a sujeira que é nossa, não dele. João Havelange chegou a ganhar a travessia Vila Maria-Espéria, muito antes de ser o chefão cartola do futebol. Vários remadores famosos passaram por lá, como o Arlindo Donato, exímio esportista, autodenominado o “louco remador”, professor de Amir Klink e outros tantos. Com o tempo a raia foi ficando cada vez mais reservada e exclusiva do campus da USP e a pequenos grupos de remadores. Porém nem tanto. Em suas águas, como no encanto de outrora, ainda a lua anoitece sua sombra que tremula e se espelha sob suas águas limpas, Iemanjá, sereias , botos e indinhos Tamoios já foram vistos por alguns invasores noturnos, puladores de muros inebriados pela poluição que paira na cidade e pela fumaça de mato verde que sai de suas tragadas contemplativas. E é aí que eu mergulho, ou melhor, onde íamos pescar. Exatamente lá. Na raia da USP. Tilápias e lambaris nos aguardavam sempre em certas madrugadas. Até que um dia, ou melhor, aquela noite, foi a última.
Bar do Gerson. Era a concentração e o ponto de encontro da pescaria. A vitrine de salgados do bar quebrada, sem o vidro de cima há uns dois anos e o Gerson que sofria de artrite, sua mão, que já faltava um não fechava os dedos, com isso ao pegar sobre a vitrine as moedas do freguês, quase todas caíam na forminha com molho de salsichas. Gino, o italiano, dizia que na bandeja de salsichas do Gerson tinha mais moeda que na fonte de Fontana de Trevi. A postos, eu, Risada, Gino Ranciaro, Pirirí e Nica. Varas de pescar, iscas, embornal, linhadas, lanterna e cachaça. A tralha completa. Três da manhã era a hora boa. E o sono do vigia da USP também. Dentro do fusca do Risada, o “Trovão Azul” partia sereno, exceto pelo cano de escape amarrado que raspava no chão e produzia lindas faíscas e mais risadas do seu dono que sabia dirigir só carrinho de mão. Lá fomos nós na calada da noite para mais uma pescaria.Ágil e magro o Nica, aquele que ficou três meses vadiando na Espanha e dizia ter “esquecido” como falar o português, subia primeiro no muro dando a mão: “Arriba muchachos”. O Risada, pedreiro forte, sempre com acesso de riso, fazia a escadinha. Pirirí, nosso eterno bardo, queria sempre tocar um rock sem guitarra em cima do muro ou fazer um breve discurso sobre o racismo, que de pronto tirávamos aquele seu lencinho vermelho do Jimmy Hendrix de seu pescoço para amarrar sua boca. Muro pulado, silêncio para não acordar o guarda noturno, varas em riste, sentávamos no nosso canto. Tilápias tilintavam tontas no embornal que aos poucos enchia. Pirirí teimava sempre em vão, num estribilho rimar rio Pinheiros com Rio Pedrense.
 Assim foi durante anos nossa pescaria noturna. Aos sábados , do alto da Vila, se avistava uma fumaça da chaminé da Rua Turi. Logo de manhã tinha tilápia na brasa, lambari a belle muniere, frito ou ensopado, cerveja e violão para a galera madalesca e os amigos dos “Piratas da Raia”, como dizia o Risada. Até que um dia essas noites tiveram fim. O Nica, com sua “visão comerciale” que dizia possuir, levou sem a nossa permissão uma rede, picaré ou melhor uma tarrafa e lá já estava ele antes de nós, recolhendo um monte de peixe. Foi-se também seu sonho de montar a “Barraca da Tilápia” na Feira da Vila. Moral da estória, ao subirmos com sacrifício o muro, a rede despenca lá de cima caindo peixe na Marginal pra tudo que é lado. Motorista desviando, carroceiros e mendigos pegando peixe na pista. Pirirí discursando sobre o “Milagre dos Peixes”. Viatura. Todo mundo em cana. Vaquinha, fiança, liberdade, tilápias nunca mais.

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