A favor dos refugiados

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Marcelo Haydu

Criada em 2010, a ONG Adus – Instituto de Reintegração do Refugiado Brasil – já atendeu a mais de 400 refugiados em programas de ensino da língua portuguesa e assistência em colocação profissional entre outras ações.

O sociólogo Marcelo Haydu é um dos fundadores e o diretor executivo da ONG, que tem sede junto à Casa da Cidade, na Vila Madalena. Nesta entrevista, ele aborda o problema dos refugiados que vivem no Brasil.

O que significa Adus e como surgiu?
Em latim, adus significa afeto, carinho, e corresponde ao nosso objetivo junto aos refugiados. Em 2009, escolhi o tema dos refugiados para minha graduação e me envolvi completamente. Convidei dois colegas, Vitor Mellão e Andrea Piccini, italiano. Fundamos a Adus em 10 de outubro de 2010 e desde então temos nossa sede aqui na Vila.

Quantos refugiados vocês atenderam desde a fundação?
Mais de 400. Eles participam dos vários programas que promovemos, como o curso de língua portuguesa, de qualificação profissional e outras ações.

Quantos são os integrantes da ONG?
Atualmente, somos cerca de 80 pessoas e todas são voluntárias.

Como vocês mantêm os programas?
Temos poucos recursos. Nos mantemos com nossos próprios recursos e também através de doações de simpatizantes e algumas parcerias com empresas.

Que tipo de parcerias?
Exemplo, no curso de português, recebemos a colaboração de dois parceiros. Com a Wizard, conseguimos os livros e o treinamento dos professores voluntários e as aulas acontecem na sede do curso vestibular do Onze, que fica próximo da Praça da Sé.

Qual a maior dificuldade que eles têm?
O idioma é o problema básico para a maioria que fala francês e inglês. Mas temos gente que só fala persa e sem entender nossa língua, tudo fica bem mais difícil.

De quais países eles vêm?
Tem bastante gente da Colômbia, Nigéria, República Democrática do Congo, do Oriente Médio, do Haiti e até do Nepal e do Butão.

Quantas pessoas vivem aqui?
No Brasil estimamos que sejam 4.600. A maioria vive no eixo Rio-São Paulo e aqui na cidade são cerca de 1.800 pessoas que têm o status de refugiado. Mas há cerca de outros 600 que estão com pedidos em análise pelo Comitê Nacional de Refugiados.

Eles correm o risco de serem deportados para seus países?
O Brasil assinou a Convenção de 1951 que garante que, enquanto não tiverem negado seu pedido, eles não poderão ser deportados para seu país, onde eles correm risco de morrer.

Por qual motivo eles pedem refúgio?
O que define o refúgio é a perseguição, por questões raciais, religiosas, políticas, de nacionalidade, de violação de direitos humanos, que inclui a orientação sexual. Temos o caso de jovens iraquianos que estão vindo porque correm risco de serem executados por causa de sua orientação sexual.

Como é feita essa análise?
Quando pedem o refúgio, eles apresentam seus motivos e a análise é feita pela Polícia Federal. Mas quem cometeu crime não recebe refúgio, assim como as pessoas que se envolveram com tráfico de drogas. Nesses casos, eles podem ser extraditados.

Eles são bem recebidos aqui?
Fizemos um trabalho em 2010 em parceria com o Sesc e uma diretora de cinema. Treze refugiados saíram pelas ruas da cidade com uma câmera na mão perguntando às pessoas sobre o que elas conheciam sobre seus países. No final da entrevista, os refugiados falavam sobre sua situação e foi impressionante o número de pessoas que desconhece o que é ser um refugiado e como eles são vistos de maneira equivocada e preconceituosa por boa parte da população.

Você poderia dar uma ideia do perfil do refugiado que está aqui?
No caso do Brasil, é homem na maioria, de 20 a 30 anos, e a instrução varia de básica até médicos, engenheiros. E a maioria está aqui por questões políticas.

Eles escolhem o Brasil por qual motivo?
O Brasil não é a primeira opção. Mas como Europa, Estados Unidos e Canadá estão se fechando mais, o Brasil acaba sendo uma opção. E com os eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas, eles vêm com a esperança de arrumar trabalho. Enquanto estão com seus pedidos em análise, podem circular livremente pelo país, trabalhar e estudar.

Eles se adaptam facilmente?
Os latinos e africanos, pelo clima e pelo idioma, sim. Mas os que vêm do Oriente Médio em geral têm dificuldades com o clima, a língua e nossos costumes e religião e muitos querem ir embora para outros países.

O que o governo brasileiro faz por eles?
Analisa o pedido e depois de concedido o pedido de refugiado, são as ONGs que ajudam. Os que chegam até nós, fazemos uma entrevista completa com cada um para saber suas qualificações, instrução e os ajudamos com cursos de português, colocação de trabalho, moradia.

É fácil encontrar colocação para eles?
Buscamos empregos nas empresas onde fazemos um trabalho de sensibilização. Muitos empresários acham que os refugiados estão em situação irregular e tiramos todas as dúvidas. O empregador, antes de admitir o trabalhador, já sabe a história dele e ele tem os mesmos direitos de qualquer trabalhador brasileiro.

O trabalho de vocês termina aí?
Não, continua. Mantemos contato com a empresa e o refugiado para saber se tudo está correndo bem, se ele está recebendo regularmente etc. Precisamos evitar que as pessoas se aproveitem da situação deles. Muitos não conseguem exercer a mesma profissão que exerciam em seus países, como os médicos, por exemplo. Eles acabam trabalhando em outras funções até regularizar sua situação profissional aqui.

Entre os voluntários da Adus têm refugiados?
Sim, e o interessante é que todos vieram espontaneamente. Procuramos manter contato com muitos deles que passaram pela Adus. No último dia 16 de junho, promovemos uma confraternização entre os voluntários e os refugiados com churrasco e futebol.

O que o motiva a continuar nesse trabalho?
Independentemente de serem estrangeiros, são seres humanos. Se ficamos indignados quando um brasileiro é maltratado em outro país, por que não fazer o mesmo com os outros? Ninguém escolhe ser refugiado por livre vontade. Muitas vezes deixam família e toda uma vida para sobreviver.

Rua Rodésia, 398
www.adus.org.br
facebook.com/adusbrasil

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