Noites que rendem histórias

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Kátia Gomes
Todo dia, por volta das 19h, seu Armando Rafael Colacioppo, sai da sua casa na Vila Nova Cachoeirinha e percorre bares como Filial, Teta Bar, Ó do Borogodó, entre outros lugares na Vila Madalena, vendendo os bonequinhos de pano confeccionados por sua esposa, Vera Lúcia Bertazzoni Colacioppo, e só retorna, de ônibus, carona ou bicicleta, quando já tiver raiado o dia. Essa rotina se repete há 35 anos.
Engenheiro formado pela USP, este senhor carismático que muitos conhecem por suas andanças noturnas pelo bairro e que até rendeu uma comunidade no Orkut com o nome “Compra um!!!” e que tem cerca de 199 membros, durante o dia é um pacato e reservado chefe de família que gosta de tocar flauta nas poucas horas livres. Tem dois filhos, três netos e vive com dona Vera e seus cães em uma espaçosa casa comprada pelos filhos, embora faça questão de ressaltar que conseguiu educar cada um deles até a faculdade com o dinheiro que ganha vendendo seu artesanato à 5 reais cada. “Nunca quisemos enriquecer. Temos a consciência tranqüila por viver do artesanato”, diz uníssono este casal que trabalha junto cerca de 15 horas por dia, já foi militante do PT e incorporou os costumes hippies para se safar da Ditadura e como forma de subsistência.
Em uma tarde costumeira, enquanto dona Vera costurava e seu Armando ouvia música clássica no rádio, eles receberam a equipe do Guia da Vila para um bate-papo descontraído. Durante a entrevista, seu Armando manteve-se a maior parte do tempo apenas observando a falante e bem-humorada dona Vera, numa comunhão de quem vive há mais de três décadas juntos. Muitas de suas histórias foram guardadas para o livro que pretendem lançar assim que conseguirem o apoio de uma editora. Confira o que eles anteciparam para o Guia da Vila.
O senhor circula pela Vila há 30 anos?
Vera [tomando a iniciativa] – Nós casamos no início dos anos 1970. Nesta época o Armando fazia engenharia naval na USP, o curso era em período integral. Começamos a fazer artesanato para ele poder estudar e nós sobrevivermos. No começo vendíamos lá na USP. Depois o Armando foi para a região da Praça Roosevelt, Jardins… A Vila Madalena não era nada do que é hoje quando começou a vender no Clube do Choro, depois no Vou Vivendo, no Bom Motivo, no Ó do Borogodó, no Filial… Bares percussores da Vila Madalena e onde os donos são grandes amigos do Armando. Agora em janeiro fazemos 35 anos de casados e nunca fizemos outra coisa da vida.
É possível viver da venda dos “bichinhos”?
Vera – Se a intenção fosse ficarmos ricos, o Armando teria exercido a profissão dele. Esta foi a alternativa de vida que escolhemos. Entramos no ramo do artesanato com o movimento hippie. Não queríamos nos envolver tanto com o capitalismo e a sociedade de consumo…
Armando – Eu ainda faço a divulgação dos bares em que vendo os bonecos. Não ganho por isso. É uma troca de favores. Também estou tentando me aposentar mas não consigo. Todo mundo conseguiu anistia, eu não… Mas estamos com a consciência tranqüila.
Vera – Como artesãos educamos nossos filhos, cuidamos do meu pai e minha mãe quando ficaram velhinhos e, indiretamente, fizemos um trabalho aqui no bairro [Vila Nova Cachoeirinha]. Sempre fui líder comunitária, criamos movimento ecológico, militamos para o PT, costurei para restaurantes, teatros… Ajudava senhoras idosas que costuravam toalhas para mim e assim elas podiam comprar dentadura, óculos, meia elástica. Quando pegava alguma encomenda grande era uma festa porque todas ganhariam um pouquinho de dinheiro. Ninguém tem consciência do trabalho que dá riscar, cortar, virar, encher cada boneco. Agora reduzimos bastante o volume de trabalho porque o Armando está “de idade”.
Quantos bonecos são vendidos por noite?
Vera – Eu faço 30 por dia. Quando o movimento está ruim, a gente arremata…
Armando – [risos]
Vera – Não é muito pelo trabalho que dá e pelo preço que vendemos. Hoje temos um concorrente muito sério que é Taiwan, embora nosso trabalho já tenha sido comparado com os parangolés de Hélio Oiticica. Já foi feita até filmagem disso. Teve gente que associou nossas cores as das bandeirinhas do Volpi.
A senhora é quem cria os desenhos?
Vera – Sim. Eu nunca copiei nada de ninguém. Já fiz mais de 400 modelos.
Armando – Há uma interação entre o consumidor e a gente. Lançamos um bonequinho e vimos qual é a reação. As pessoas dão nome, criam uma historinha… O Marciano Erótico é o que mais faz sucesso.
Vera – Para você ter uma idéia tem gente que namorou comprando esses bonecos e hoje compra para os netinhos.
Os bonecos não são infantis…
Vera – O Marciano não é para criança. As pessoas gostam do que tem conotação erótica porque está associado à noite.
Armando – Ele tem “bilau”. [risos]
Há quem faça coleção…
Armando – Só no Ó do Borogodó tem uns 200 bonecos diferentes.
Vera – Outro dia um amigo teve o carro roubado com a coleção inteira. Cada bichinho representava um momento dele. Ele me ligou à uma hora da manhã perguntando se eu podia refazê-los porque o carro tinha seguro, mas os bichinhos não. [risos]
Armando – Tem os do Zé Celso [José Celso Martinez, diretor do Teatro Oficina] que as pessoas compram só para presenteá-lo.
Vera – Não sabemos se é verdade, mas parece que ele tem mais de30 bonecos com a sua carinha.
Armando – Agora ele assina e devolve para a pessoa. [risos]
Quem mais já foi homenageado?
Vera – Muita gente. Já fiz da Rita Lee… Agora gostaria de homenagear o Zé Antunes [o teatrólogo e diretor do CPT, José Alves Antunes Filho]. Estou tentando pegar o tipo dele. Também quero fazer um com cabelinho rastafari para homenagear o Cidão [proprietário do Bar do Cidão].
Por essas andanças de bar em bar o senhor presenciou muita coisa…
Armando – Comecei no período da Ditadura… Na época fomos hippies porque com eles não havia repressão. Era tudo paz e amor…[risos]
Vera – Acompanhamos todo o movimento e a trajetória noturna, vimos muito bate-bate, bares que deixaram de existir como o Bar Brasil, o Divina Comédia, o Vinte e Dois… Antes tudo acontecia nos Jardins. Depois de um certo tempo a vida noturna centralizou na Vila Madalena. Queremos escrever um livro contando a trajetória da noite paulista que terá o título “Bichos da Noite”.
Armando – Uns dez anos atrás eu saía com um caderninho onde as pessoas que eu encontrava nos bares faziam suas anotações. Cheguei a juntar cerca de 600 historinhas, mas parei porque todo mundo ficava escrevendo, batendo papo e nada de comprar bichinhos. [risos] Mas vamos publicar mesmo. Acho que dará um livro muito interessante.
A abordagem com o público mudou nestes anos todos?
Vera – A abordagem do Armando sempre foi a mesma. Ele chega brincando…
Armando – É um trabalho de teatro. A vida é um palco e a gente se diverte, mas hoje eu tenho lidado mais com o povo. Antigamente era mais a classe média, que agora freqüenta lugares fechados. Não tenho mais acesso a eles. Meu público é estudante, ator de teatro, jornalista… Esse pessoal que fica às 4 horas da manhã lá no Filial.
Houve algum fato engraçado que marcou nessas madrugadas?
Vera – Posso contar da Rebordosa? Aquela mulher que ia toda chique no Bom Motivo e depois do terceiro uísque ia para o estacionamento, levantava a roupa e chamava os garçons…
Armando – Puxa, não conta… [risos]
Vera – Ah, uma vez o Armando chegou aqui em casa roxo. Ele foi vender em um restaurante boliviano em que estava um ditador da América Latina, esqueci o nome dele. Como ele estava se escondendo no Brasil vivia rodeado por seguranças e o Armando foi ao restaurante que ele estava, na Joaquim Eugênio de Lima, e já chegou oferecendo bichinho para ele. E ele comprou um marcianinho! O Armando podia ter sido degolado, nem garçom chegava perto do homem. [risos]
A noite tem o lado triste também.
Vera – Sim. O Armando já viu meninas que vendiam bala no farol sendo atropeladas e mortas, garotos que engraxavam sapatos e passaram a cheirar cola.
Armando – Uma vez fui vender para um cara, sentado com outro homem na mesa, que nunca comprava um bichinho meu. Eu sempre tentava vender e ele nada. Até que nesse dia eu cheguei e ele comprou na hora. Depois eu o reencontrei e ele me contou que estava sendo assaltado naquele momento. O outro cara, o assaltante, estava com o revólver por debaixo da mesa apontado para ele.
Já aconteceu algo diretamente com o senhor?
Armando – Fui atropelado por um ônibus uma vez quando estava andando de bicicleta. Fraturei a bacia e fiquei um mês parado.
Vera – O pessoal da Vila Madalena é muito legal. Sem o Armando pedir nada, um se prontificou e mandou cesta básica, outro ofereceu uma quantia em dinheiro…
Os senhores acompanharam o desenvolvimento do bairro. Como vêem a Vila Madalena?
Armando – [pensativo]
Vera – Posso responder por ele? O Armando fala tanto à noite e de dia fica quieto…
Armando – Aburguesou. Existem espaços que estão resistindo como o Ó do Borogodó, Roda Viva, Bar Sem Saída, Bom Motivo…
Vera – Esse mínimo que restou é o que faz a coisa tomar proporção.

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