Moço de fino traço

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Kelly Monteiro
O ilustrador e artista gráfico Orlando Pedroso é uma das figuras de destaque na área do desenho. Ele faz um trabalho genial, ágil e intrigante, tanto pelo seu traço quanto pela novidade que acaba de lançar: o livro “Moças Finas”, uma verdadeira coleção de moças, é claro. São 84 desenhos, ao mesmo tempo engraçados e sensíveis, feitos com “caneta comum, de escrever, sem esboços, nem corretivo, nem retoques”. Melhor ainda: “nem silicone nem photoshop”.
Moças Finas nasceu espontaneamente. Orlando enviou alguns desenhos para o blog do cartunista curitibano Solda, que publica algumas fotos de mulheres com “os pêlos pubianos em fúria”, sob o título de “Mata Atlântica”. Da Mata Atlântica para as moças finas e para o livro – uma produção independente de Orlando -, foi um pulo. “Num determinado momento me senti no ginásio rodeado de moleques cheios de espinhas na cara e pêlos nas mãos que pediam para eu desenhar mais uma gostosa”, diz no texto de orelha do livro.
O paulistano Orlando, premiado pela hqmix como melhor ilustrador de 2001 e 2005, tem seu estúdio-escritório em Pinheiros há 18 anos. É colaborador do jornal Folha de São Paulo e de publicações como Playboy, Capricho, IstoÉ, Marie Claire, Você S/A, Veja, entre outras. Já realizou várias exposições, por exemplo, “Como o Diabo Gosta”, no Espaço Unibanco, e “Olha o Passarinho!”, no Espaço Ophicina. Além disso, faz parte do conselho da Sociedade dos Ilustradores do Brasil (SIB), para quem organizou o 2º e o 3º Ilustrabrasil!, em parceria com o Senac Lapa.
Divirta-se com a entrevista e saiba um pouco mais sobre “Moças Finas”, à venda pelo e-mail fantasma.net @uol.com.br.
Como se descobre que quer ser ilustrador?
A profissão mesmo eu fui descobrir quando já estava no primeiro colegial. Na verdade, eu desenhava bem, melhor do que a média das pessoas, e na época não tinha muita idéia do que fazer com isso. Eu tinha um pai que era farmacêutico e queria que eu fosse médico. Tinha uma certa pressão por causa disso. E as pessoas falavam pra ele que era legal se eu fizesse publicidade, já que eu desenhava, e publicidade é que dava dinheiro, era uma profissão que estava começando, um negócio meio da moda. E por um tempo tive a idéia de fazer publicidade, mas não sabia exatamente o que eu queria ser. Quando entrei no colegial, comecei a ler os jornais e saquei o que eram os desenhos. Aquilo me encantou e fui para este lado. Inclusive fui fazer colegial técnico em artes gráficas e aí a coisa ficou toda encaminhada para este lado. Logo depois fiz um portifólio e fui atrás de trabalho em editora.
Qual foi o seu primeiro personagem?
Nunca consegui desenvolver personagens e nem fazer histórias em quadrinhos. Não chega a ser uma frustração, hoje já é uma coisa incorporada, acredito que sou um artista de peça única. Eu faço um trabalho e quero que ele termine logo. Para fazer quadrinhos precisa ter paciência, desenhar sempre os mesmos personagens; eu não tenho muito esta característica. Acabei sempre atrelando a minha formação inicial, que é de ilustrador, ou seja, faço um trabalho atrelado a um texto. Depois comecei a fazer muitos cartoons, charges, quer dizer, no fim a coisa acabou abrindo um pouco. Hoje, além do meu trabalho na imprensa, procuro desenvolver alguns temas, me agarro em algumas coisas e vou trabalhando em cima disso. Fiz uma exposição chamada ‘Como o Diabo Gosta’, que era só dobre o diabo; fiz outra chamada ‘Olha o Passarinho!’, que era só sobre fotógrafos. No caso do ‘Moças Finas’ também é um filão. Tenho um flog onde invento um negócio e vou até esgotar aquilo. Tenho procurado sair um pouco da obrigação de trabalhar um texto de uma outra pessoa para inventar uma historinha que é minha.
O que te inspira mais na criação de uma charge? Depende do que está acontecendo no momento com o País, por exemplo?
Depende. Se eu faço algo pra Folha ou pra Veja, por exemplo, é em cima de um tema pré-existente, ou alguma coisa que aconteceu no dia, ou um assunto que está em pauta, uma matéria de comportamento e tal. Por outro lado, tenho deixado muito em aberto essa coisa de ter um estalo. Vira e mexe estou trabalhando e rola uma idéia. Antigamente eu deixaria quieto ou anotaria num lugarzinho e aquilo morria. Hoje não. Se eu tenho uma idéia, até anoto, mas depois vou lá e finalizo, faço com que vire um objeto.
“Moças Finas” nasceu a partir de um blog. Como foi essa história?
O Sonda é um cartunista curitibano e ele tem um dos blogs mais legais da área. Ele publica desenhos, cartoons, textos de muita gente bacana, e tem uma sessão que ele chama de Mata Atlântica, onde posta fotos de mulheres com muito pêlo, sem depilar. Sempre tem uma frasesinha tipo ‘Mata Atlântica, vamos preservar’. E um dia eu fiz um desenho brincando com isso, um desenho que combinava o cabelo com os pêlos; no outro dia mandei outro, e assim foi… E aí comecei a fazer uma outra variação que não precisava ter essa obrigação dos pêlos e dos cabelos e mudei o nome para Moças Finas. Fiz mais alguns e saquei que daria um livro. Eu tava louco para fazer um livrinho, tenho projetos que estão em editoras e ficam se arrastando, enfim, decidi eu mesmo fazer.
Valeu a pena fazer uma produção independente?
Sim. E foi ótimo porque em hipótese nenhuma eu conseguiria em uma editora falar ‘vou fazer um livro’ e, em uma semana e meia, duas no máximo, estar com o livro na mão. Isso não existe. A partir do momento em que eu tinha essa série já começa da, em uma semana fiz os outros desenhos e fui montando nas páginas e foi pra gráfica.
Você considera Moças Finas um livro erótico?
Não, acho que ele não chega a ser erótico no sentido da palavra. É um livro erotizado talvez. E talvez defina um pouco o que se tornou o meu trabalho. Primeiro tem essa coisa de desenhar rápido. Como eu trabalho com jornal desde sempre, não consigo trabalhar com muito tempo, tudo é muito rápido. E desenhar essas moças foi legal porque deu continuidade a esse exercício. Segundo porque ele mantém a linha do humor. Apesar de ter algumas figuras que são um pouquinho mais erotizadas no sentido próprio da palavra, eu acho que o livro sempre tende a puxar para o humor. É um livro mais bem-humorado do que erótico. Talvez seja um bem-humorado erotizado.
E qual tem sido a reação das pessoas?
É engraçado porque as pessoas ficam tocadas. Por exemplo, no lançamento aqui em São Paulo. Tinha uma fila enorme e as pessoas ficavam vendo o livro na fila. Ninguém sabia direito o que era. Sabiam que era um livro do Orlando, mas ninguém sabia direito o que era. Teve uma coisa meio catártica. Quando chegavam para que eu autografasse o livro, havia um grau de excitação que não era excitação sexual, mas de euforia. E acho que o livro acaba causando um pouco isso porque foge dos padrões. Quase não tem livro só de desenho no mercado. É muito raro. Ou é de cartoon, ou é livro de arte, ou retrospectivas de trabalho. Pouquíssimos são os livros feitos a partir de um tema único. Acho que ele tem essas características que são positivas. E tem um pouco o susto de ver o que é. Por exemplo, minha mãe, que mora em Tatuí, foi na abertura do lançamento e ficou completamente decepcionada porque ela não poderia levar o livro para as amigas verem. E ela espalhou para todo mundo que ela estava vindo pra São Paulo para o lançamento do livro do filho dela. Ela ficou realmente mal! (risos), meio decepcionada não com o livro em si, mas com o que o livro causou pelo fato dela não poder mostrá-lo para as amigas.
Você fala que alguns dos desenhos são meio bizarros. Por quê?
Tem algumas coisas que fogem um pouco do normal. É evidente que quando você tem um pêlo pubiano combinando com o cabelo já fica uma coisa meio estranha. Tem uma menina com uma trança enorme que junta com os pêlos, tem aquela punk, por exemplo, que tem o cabelo moicano e os pêlos também; tem a moça tatuada. Na verdade, não tem bizarrice no sentido do freek, não tem ninguém deformado, e tal, mas tem um pouquinho esse jogo de absurdos.
As moças foram desenhadas a partir de pessoas conhecidas?
Alguma ou outra coisa pode ser, mas não tudo. Quando você faz um negócio desses começa ou por pessoas ou por coisas que você já viu. Por outro lado é um exercício de desdobramento. Tem um desenho que eu gosto muito que é uma mulher com um nariz muito adunco e os seios dela têm o mesmo formato do nariz. São jogos que vou fazendo e é isso que me interessa, pegar um assunto e ver aonde consigo chegar. Com certeza, daria para fazer um livro de duzentas páginas. É menos inspiração e mais o exercício de fazer.
A profissão de ilustrador é valorizada no mercado? Tem mais espaço do que antes?
Já foi muito mais. Boa parte das profissões, especialmente as ligadas ao jornalismo, perderam um pouco o foco. Acho que tanto a ilustração como a fotografia, o próprio jornalismo, modificou um pouco a característica do trabalho. Comecei a trabalhar na Folha em 1985. Naquela época, você entrava na redação e todo mundo brigava muito, discutia, emitia opinião. Hoje não! O jornal é praticamente um caderno de serviços. Não existe mais briga com o editor tipo ‘não concordo com isso e vou embora, não trabalho aqui nunca mais!”. Não existe mais isso e é uma pena. E no caso dos ilustradores houve uma perda enorme do espaço. Primeiro por crise do papel, depois pela própria crise do jornal que hoje não se sabe exatamente para aonde vai. Houve a formação de novos diretores de arte que deixaram de usar a ilustração e isso passou a ser meio uma regra. A SIB, inclusive, é voltada muito para este lado, de tentar retomar um pouco, se não o glamour, mas pelo menos a necessidade de sair da mesmice. Por exemplo, um jornal que faz um caderno sobre a Copa de Mundo. Uma cena bastante comum é ver aquele monte de câmeras, produzindo centenas de fotos iguais. Acabou a coisa de mandar o cara para pegar um ângulo diferente. E esta é justamente a função do ilustrador: mostrar uma outra situação ou um outro ponto de vista.
A ilustração ajuda a criar a personalidade de um jornal ou revista?
Sim, tanto que muitos veículos tiveram, inclusive, o seu perfil delineado por conta de caras que trabalhavam neles. Um exemplo disso é a revista Cruzeiro, que tinha o Jaguar. A própria Playboy, até o início dos anos 1990, era a bíblia dos ilustradores. Todos os bons estavam lá. Isso não tem mais, já acabou, e é uma pena. Estamos tentando retomar isso, fazemos eventos, mas tem uma coisa arraigada e entra a questão econômica. Os jornais já não têm espaço para a notícia, quanto mais para desenho. As revistas não têm mais matérias de dez páginas, são só notinhas. Quando eram matérias longas, o desenho aliviava o peso deste texto. Hoje, quase ninguém tem tempo de ler, então se faz tudo picadinho. É uma pena.

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