Esquina de lembranças

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A Rua do Futuro segue seu rumo. Começou sendo o caminho por onde passavam os carros de boi, boiadeiros e suas boiadas, como já contei aqui. Foi o acesso maior entre as inúmeras chácaras para subir até a vila que se formava. Era a estrada por onde escoava a produção agrícola da região até o Largo da Batata, anos depois, para o Mercado de Pinheiros.
A Rua do Futuro, assim chamada, haveria de contar muitas histórias e passar por gerações, vidas e transformações à espera do dia que, assim como a música diz, o próprio tempo vai parar para ouvir.
A Rua do Futuro veio mais tarde se chamar Natingui. Sua raiz foi procurar no passado esse nome tupiniquim para entendermos melhor sua trajetória de vida em nossa história. As ruas, acredito, são partes de nós, assim como as veias e artérias do corpo humano. São as nossas árvores genealógicas debruçadas no chão e ramificadas na terra em que nascemos. Quantas vezes nos perguntamos: quanto tempo ocupou aquela rua na minha vida?
Com toda certeza cada um tem guardado na lembrança as ruas por onde andou. Quanto a mim, tenho a Rua do Futuro muito presente. Já fiz muita serenata para suas janelas e cantei esperando a lua que nascia sempre no fundo dela. Lá no passado, naquela mesma rua, dediquei alguns anos de minha vida. Nosso escritório era o bar do Gerson. Nossos planos urbanos, nossos sonhos feliz de cidade eram traçados ali, que por ironia da saudade a outra rua, que faz esquina com a Natingui, chama-se Lira. As festas da Vila, como o Bloco do Boi, toda quarta-feira de cinzas, para lembrar e rir com o Risada, vestido de boi, arrancar sorrisos e gargalhadas dos meninos e dos velhos da nossa rua, da mesma rua que começou passando boi atrás de boi, agora sorria com o seu passado. Do cinema que projetávamos no muro todos os domingos à noitinha, aos gritos de senta, senta e a calçada enchia de gente para assistir de graça toda a graça que essa rua nos deu.
No bar do Gerson, avesso ao tempo que passava, existia sempre uma mesinha de amigos que jogavam dominó noite adentro. Papo, risadas e mais papo. Agora que passou posso contar as inúmeras vezes que ali planejamos as madrugadas que saíamos para pescar na raia da USP. Antes de o sol chegar junto com os remadores e antes do vigia acordar, seguíamos com as varas de bambu, anzol, cachaça e minhoca rumo ao rio de tilápias e lambaris proibidos. As conquistas dessas manhãs eram fritas à noite no bar do Gerson por ele mesmo, que abria cervejas como se fossem champanhes.
Não quero ser trágico nem exagerado, tão pouco dramático. Porém, se existe vida após a morte, como sustenta meu primo Fausto nos balcões filosóficos, no bar do Gerson agora sinto que acredito. Vejo-o nitidamente vivo, embora jaz aqui, varrido da face da Terra por um trator frio e insano que, como todo criminoso astuto, apagou de nós toda uma esquina levando junto com os seus tijolos nossa história vivida. Neste terreno baldio vejo o bar ainda ali, presente em nossa memória, gravado em nós. Aqui jaz um bar! Um ninho de amigos, um núcleo de idéias, encontros de lazer e ócio.
Vejo esta foto e como vocês não enxergo mais nada. Não haverá mais o dominó, nem outro lugar para os seus poucos freqüentadores se reunirem. Ficarão como os pássaros depois que derrubam suas árvores, debandando para longe. Restará apenas a casa do Chaguri, na esquina da Natingui, ou a barbearia do Álvaro, para tomarmos cervejas e bater papo?
O que será que será? A princípio um estacionamento guardando carros vazios, sem vida. Depois talvez, um prédio feito pombal que isola a solidão de cada um.
Passei hoje aqui na frente chupando uma mexerica da feira ao lado. Fiquei parado ali sem intenção ou ausência de um ato dramático, fui aos poucos jogando as sementes da fruta sobre o terreno onde antes habitava alegria e celebração dos encontros.
Jovens idealistas, românticos da vida e da Vila, promissores profissionais da fotografia e do cinema, fotografem, filmem cada casa, cada esquina e cada rua. Nossa memória está sendo apagada sem escrúpulos, em pouquíssimos anos ou meses, só restará de outras ruas do futuro uma vaga lembrança sem passado e sem registro.

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