Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo

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Dia de jogo ficava sempre um da casa no telhado. Não havia satélites transmissores. O único satélite que havia era a Lua assistindo a Terra. Existiam somente as antenas “escamas de peixe” que recebiam os sinais para os televisores. Um simples ventinho, um pássaro, uma nuvem passando podia fazer sumir a imagem da tevê.
-“Vira um pouco mais!”.
-“Não, não tira a mão, não mexe que a imagem está boa!”.
-“Vira mais, mais, mais, mais! Tá bom!”.
Eram os gritos da sala para os convocados lá em cima nos telhados. Geralmente quem subia eram os caçulas da família, os ruins de bola, aquele que não gostava de futebol ou o garoto que preferia conversar com os passarinhos a ver uma partida de futebol. Quem não possuía antena no telhado contava com uma antena interna, sobre a televisão, com pedaços de “Bombril” nas pontas, tentava-se assim tirar os fantasmas da imagem.
Tempos em que a bola era de capotão de couro, os times eram grêmios não empresas e os uniformes tinham apenas suas cores e um emblema em cima do coração.
Lembro-me o dia em que meu pai trouxe orgulhoso um plástico rígido meio transparente dizendo “Agora vocês vão assistir a tevê em cores!”. Havia nessa película dependurada na tela com uma faixa azul-céu em cima, umas cores no meio e por último um verde copiando o gramado de um campo. Era uma coisa horrível. Ao vivo era muito mais interessante, num campo assistindo um futebol de várzea, de bairro contra bairro ou nos campinhos urbanos que haviam pela cidade. Aqui na Vila Madalena existiam alguns e com bons times de excelentes jogadores varzeanos. Os jogos aconteciam aos domingos de manhã, no antigo terreno do IAPC, onde eram os campos do Esporte Clube 1º de Maio, 7 de Setembro e o Leão do Morro, que duraram até o ano de 1969, quando ali no final da Mourato Coelho até a rua Natingui, teve início a construção do BNH, hoje chamado de Conjunto Natingui.
O fim destes campos de futebol na Vila foi um golpe para o grande incentivador do esporte, o Zé Leiteiro e para os veteranos, principalmente para o briguento e encrenqueiro Boi, jogador que não trocava nada por um “bafafá” qualquer.
Havia o goleiro Sabiá, presente na foto, tido como o melhor goleiro de várzea do Leão do Morro. Fazia jus ao apelido, voava literalmente na bola. Diziam que era da turma que adorava fumar uma tal de erva daninha antes do início do jogo com o treinador Bonecão, e aí é que queria mesmo voar, chegava a plainar. Há quem diga que realmente voava em câmera lenta de trave à trave.
Um ídolo de todos os torcedores, até mesmo pelos seus adversários, era o Teodoro Judica, o nosso “Dorinho”. Contou-me um dos seus fãs, Álvaro Barbeiro, que este jogador era um craque perfeito, de um controle de bola refinado, jogava só com o pé esquerdo e era duro nas entradas. Jogou com os grandes ídolos em vários times. Dorinho deixou saudades aos torcedores da Vila. Tova, outro magnífico jogador do 7 de Setembro, diz que “Igual a Dorinho, jamais” O Álvaro completa dizendo que o futebol de hoje é força individual, não tem jogador de destaque. “Dorinho era violento pra jogar, possuía o passe perfeito e a destreza com a bola”, nos conta Adilson Zuppo, “tinha o estilo de Dino Sandi e a classe de um Ademir da Guia”.
No futebol de várzea, não existe salto alto. Existe raça, o jogador veste mesmo a camisa do seu time de coração. Não pensa em loiras nem ferraris, quer jogar. Certa vez, o Zé Eduardo contou-me quando jogava em Serra Negra, toda cidade sabia que o time que vinha de fora para jogar com eles era melhor. O combinado ficou o seguinte, o time de fora pode ganhar, “agora de lavada não”, disse o treinador. “O placar começou a ficar feio… Joga a bola lá no milharal, que ninguém acha”. Dito e feito. O juiz apitou o final do jogo antes do término. O vexame foi poupado e o quebra pau rolou solto.
Foi numa das grandes partidas de futebol de várzea que a Vila recebeu mais de 5 mil torcedores ao redor do campo para assistir o ídolo Dorinho, entre outros colegas, como uma revoada de Garrinchas se deslocavam no campo como pássaros driblando o vento nos céus. A Vila tremia e o Leão do Morro perdia de 2 a 0 para o time de Dorinho, o Brasil de Pinheiros.
Aquele início de 1969, enquanto os Leões rugiam de raiva e espanto vendo que o craque fazia era pura magia com a bola.
Por fim, Daniel do Leão cutuca forte a canela de Dorinho por trás. O árbitro Ontten Aires de Abreu não vê, apenas assiste o tapa violento que Dorinho solta na cara do seu provocador. Pronto. É expulso do campo. O Leão do Morro, sem o seu grande adversário começa a virar o jogo. A Vila vai pra baixo, rojões voam para o alto, a gritaria na “Aldeia Gaulesa” é ouvida por toda São Paulo. O jogo estava sendo transmitido pela então iniciante TV Globo.
Na Vila, quem não estava ao redor do campo assistia em sua casa. O torneio chegava ao fim. 3 a 2 para o campeão Leão do Morro.
Lá de cima do telhado, alheio ao que acontecia no chão, eu assistia os fogos que tentavam em vão provocarem as primeiras estrelas escaladas da tarde nos céus, através das estrelas varzeanas do gramado, carregadas nos ombros de seus fervorosos torcedores. A saudade desta época, vem em ondas radiofônicas. E de cada radinho de pilha podia-se ouvir a voz distante e embargada de Fiori Gigliotti: “Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo…”.

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