Segredos de um bom jornalista

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Kelly Monteiro

A imagem do jornalista sério, crítico e de bom-senso fica evidente ao se assistir o Observatório da Imprensa, programa exibido pela TVE e TV Cultura. O carioca Alberto Dines, 72 anos – 50 deles dedicados ao jornalismo -, é uma das mais importantes figuras da imprensa brasileira.
Nascido no bairro do Catete e criado na Vila Isabel, reduto do samba no Rio de Janeiro, Dines começou no jornalismo meio por acaso. Autodidata, não terminou o Curso Científico – correspondente ao Ensino Médio de hoje. Foi uma forma de contestação: o envolvimento com o movimento socialista sugeria o rompimento dos vínculos com a burguesia, e o primeiro traço da burguesia era o diploma. O interesse crescente por cultura, principalmente pelo cinema, ajudou a abrir portas. Trabalhou como documentarista até surgir a oportunidade de escrever crítica de filmes para a revista A Cena Muda, da Editora Americana, que existia na Lapa, e o envolvimento com atividades ligadas ao cinema foi inevitável, entre elas, o 1º Congresso do Cinema Brasileiro e o Cineclube do Brasil, que teve Vinícius de Moraes como um dos fundadores.
Foi na década de 1950 que a imprensa entrou definitivamente na vida do jornalista. Os principais veículos da época eram o Diário Carioca e a Tribuna da Imprensa, além do jornal Última Hora e das revistas Manchete, O Cruzeiro e Visão. Naquela época, era permitido que empresas estrangeiras editassem publicações no Brasil e a revista Visão estava precisando de um repórter de assuntos culturais. Dines foi contratado e quando a revista foi transferida para São Paulo, ele acompanhou. A partir daí veio a consolidação da carreira.
Na década de 1960, Dines assumiu a redação do Jornal do Brasil e foi um dos responsáveis pela transformação por que passou o jornal. Foram 12 anos na empresa. Trabalhou também na Folha de São Paulo onde escrevia uma coluna de crítica à imprensa. Assim foram os primeiros passos para se chegar ao que é hoje o Observatório da Imprensa, uma entidade civil que tem como objetivo acompanhar o desempenho da mídia brasileira. No princípio, o Observatório era apenas um site, criado em 1996, a partir de uma iniciativa do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e projeto do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do qual Dines é um dos idealizadores. Depois foi para a tevê e o programa já está no ar há seis anos.
Depois de morar em Portugal, ao se estabelecer definitivamente em São Paulo, especificamente na Vila Madalena, Alberto Dines criou, com sua esposa, a jornalista Norma Couri, o escritório Jornalistas Associados, onde recebeu o Guia da Vila Madalena para esta entrevista.

O senhor é considerado um dos melhores jornalistas brasileiros e não completou o curso científico. Como avalia a educação brasileira atual? É a favor do diploma de jornalista?
Sempre fui a favor do diploma, briguei muito e paguei um preço muito caro porque as empresas eram contra o diploma. Na sexta edição do meu livro, “O papel do jornal”, discuto a questão do diploma. Isso desde os anos 1980. As universidades, sobretudo as privadas, não aproveitaram a oportunidade de preparar bons jornalistas, já que tinham um mercado garantido. Virou uma bagunça. No Rio de Janeiro há uma grande universidade privada que, no ano passado, tinha 21 turmas de jornalismo, de primeiro semestre! Isso é uma indústria, não é mais ensino. Agora, de uma forma geral, o ensino baixou muito, em todos os sentidos. As pessoas entram nas escolas sabendo pouco e saem sabendo um pouco mais, mas ainda é muito pouco. A culpa é de todo mundo. Está havendo uma baixa na exigência, em todos os aspectos. Isso faz com que as pessoas entrem nas escolas despreparadas e não saiam devidamente preparadas. É claro que foi um acidente na minha vida eu não ter completado o científico e não ter seguido nenhuma carreira. Foi uma opção política de um momento, eu tinha 17 anos, estava cheio de idéias revolucionárias, mas eu provo que não é necessário ter um curso superior. Claro que escolhi uma profissão que, naquela época, não era regulamentada, e fui à luta. E a minha profissão não era nem a de jornalista, eu me meti em cinema e do cinema fui para o jornalismo. No cinema também não havia nenhuma exigência. Tinha que ter talento e ambição.

“O jornalismo é também um estado de espírito”. Esta frase é sua. O que quer dizer exatamente?
O jornalista não é o sujeito que bate ponto. Jornalista é aquele que está atento, vigilante, acompanhando, estudando o que está acontecendo a sua volta. Não adianta estudar, ter um diploma e boas notas se não está preparado para esta atitude perante a vida, de ser um atento observador da vida e de querer interferir, melhorar, no bom sentido. Por isso é um estado de espírito.

O que o senhor acha da criação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinave)?
Esse é um problema antigo. Em 1952, quando me meti em cinema, já tinha havido um congresso em que se pedia uma série de medidas para proteger o cinema nacional. Em vários países o cinema é protegido; talvez nos Estados Unidos não porque foi lá que tudo começou e logo se tornou hegemônica a indústria cinematográfica americana. Não estou acompanhando esse negócio da Ancinave porque coincidiu com o Conselho Federal de Jornalismo. Mesmo porque o projeto do Conselho já estava pronto e tinha que ser discutido. O Ministério da Cultura está debatendo a Ancinave, está avançando, oferecendo alternativas. Acho que vai se chegar a um acordo. O importante é que nós tenhamos um cinema de categoria. Fui assistir “Olga” [Olga, O Filme, dirigido por Jayme Monjardim]. Não vou fazer a crítica do filme, mas fiquei pensando: este filme é muito importante para as novas gerações que não leram o livro, não apenas o do Fernando Morais, mesmo porque há outros livros anteriores que tratam do assunto; mas a sua geração, por exemplo, não digo você [se referindo à jornalista que o entrevistou], mas a sua geração, não sabe que a história do Brasil tem a ver com a história do mundo. Sobretudo dos anos 1930 para cá está tudo muito interconectado. A Olga não foi apenas a namorada e depois mulher do Luis Carlos Prestes. Foi uma judia alemã, comunista, que queria reformar o mundo, que veio parar no Brasil e que depois foi para um campo de concentração. E para nós o campo de concentração parece uma coisa tão distante, não é? Então, a nossa história não é só uma coisinha que fica em 1964, nos anos de chumbo, não! Estamos ligados no mundo! E para que a juventude possa ter esta percepção é preciso ter um filme que dê essa força. O filme pode ter lá seus defeitos, teve gente que não gostou, falou que é televisão, acho isso bobagem! O filme tem importância porque pega um pedaço da nossa história, e tem 80% de credibilidade, material histórico mesmo. De resto tem um pouquinho de romance, mas não faz mal a ninguém.

Ou seja, “Olga” consegue transmitir a história real?
Com muita força! Levou essa tragédia a uma população que jamais teria acesso ou interesse. O campo de concentração foi filmado no Rio de Janeiro! Isso é importante. E precisamos ter um cinema devidamente protegido, amparado, estimulado, para que ele possa se transformar em um fator de conhecimento do Brasil para o mundo.

O senhor acredita que o Conselho Federal de Jornalismo seja um retrocesso, uma nova forma de censura?
O Conselho acabou! Natimorto! Foi um desastre, uma coisa infeliz, errada do princípio ao fim. A Fenaj [Federação Nacional dos Jornalistas] não tinha que se meter nisso. A Fenaj é uma instituição que precisa, ela própria, ser repensada. Venho dizendo isso há anos. O que precisa, sim, é discutir o jornalismo. O grande mérito do projeto do Conselho foi a discussão que ele provocou. Na minha vida profissional eu nunca vi uma discussão tão intensa e tão ampla sobre mídia levada a um grupo expressivo da sociedade brasileira. Isso foi muito bom, mas ele não tem a menor condição de sobreviver e de colar, não tem como, não vai passar na Câmara. Inclusive, é tecnicamente inconstitucional. E a primeira a examinar é a Comissão de Constituição e Justiça. Nenhum deputado vai querer se meter a tocar isso pra frente e vai ficar no escaninho. E o próprio Governo está dividido. O Eugênio Bucci levantou uma questão sobre a Fenaj: ela se diz de jornalistas, mas é de jornalistas e assessores de imprensa, que são atividades aparentemente iguais, porém diferentes. Elas começam iguais, mas são caminhos diferentes. Ou seja, a Federação e o sindicato não podem ser os mesmos.

Essa discussão sobre a mídia já vinha sendo feita no Observatório da Imprensa…
Pois é. Eu acho. Só que por mais que o Observatório venha crescendo, estamos há oito anos na internet e seis anos na televisão, é preciso que essa discussão se amplie cada vez mais e seja mantida. E, sobretudo, com um mínimo de isenção, de equilíbrio. Isenção é impossível, mas pelo menos esforço para equilibrar, para ver os dois lados da questão. O que a imprensa precisa é de discussão e não de regulamento. E tem que ser discutida com intensidade. Os problemas têm que ser apontados para serem corrigidos.

Quais os maiores problemas da imprensa hoje?
Têm vários. A formação do jornalista está cada vez pior e a direção das empresas, nos últimos 15 anos, perdeu os objetivos de fazer uma imprensa que atue a favor da sociedade. A imprensa se mercantilizou, se monetizou. E aí perdeu um pouco dos seus objetivos. É claro que uma empresa comercial tem que ganhar dinheiro. Os jornais europeus e americanos também têm essa preocupação. Mas eles têm um compromisso com qualidade que aqui deixou de ter. Já teve, isso que é mais lamentável! Pega a Veja dessa semana e a de dez anos atrás e verá que a revista é a mesma, o nome é o mesmo, a editora é a mesma, mas o conteúdo caiu. Tem menos coisas de qualidade para ler, menos coisas importantes, relevantes. O que aconteceu? É o leitor o culpado? Não! É que não estão oferecendo ao leitor o que poderiam oferecer. O leitor nunca é o culpado.

Pode-se dizer que os fatos foram deixados de lado para se publicar amenidades?
Escolheram os fatos menos relevantes, menos importantes porque partiram do pressuposto, isso nos anos 1990, de que o leitor não gosta de assuntos internacionais, por exemplo. Pronto! Aí tomaram a decisão de diminuir o número de páginas internacionais. Você gosta de assunto de medicina e saúde? Gosto. Fez-se de medicina e saúde o assunto principal hoje. Em quatro capas das revistas semanais, três são de assuntos de saúde e comportamento. E o resto? E o Brasil e o mundo? É isso que digo quando a empresa deixa de apostar na qualidade. Qualidade não é para a vaidade dela, mas para melhorar a sociedade.

O termo “imprensa marrom” foi criado na época em que o senhor trabalhava no jornal Diário da Noite. Como foi essa história?
O jornal era vespertino, coisa que hoje não tem mais e naquela época, 1960, já estava acabando. Por causa da competição, eles eram rodados cada vez mais cedo. E eu resolvi, para salvar um jornal que estava decadente, fazer um vespertino, feito inteiramente de madrugada. Eu era muito jovem, tinha vinte e poucos anos, e íamos para a redação às quatro na manhã. Era um jornal popular, tinha muita matéria de polícia, e um dia veio uma notícia de um suicídio de um rapaz que trabalhava em cinema. E ele suicidou porque foi chantageado. Havia, naquela época, umas revistas de chantagem no Rio de Janeiro, que saiam sem periodicidade… E uma dessas revistas tentou chantagear esse rapaz. E ele se matou. Esse caso foi para a redação. Tínhamos repórteres de polícia, o que hoje também quase não se tem mais. Era um caso bom de uma revista de chantagem que leva um jovem ao suicídio. Já existia uma expressão em inglês que é yellow press – imprensa amarela -, que é a imprensa sensacionalista. Então, quando a gente foi fazer a manchete, pensamos em “Imprensa amarela provoca suicídio”, alguma coisa assim. Mas o meu companheiro, que também mora aqui na Vila Madalena, o Calazans Fernandes, que era chefe da reportagem, um grande jornalista, muito dinâmico e espontâneo, oriundo do Rio Grande do Norte, quando viu “imprensa amarela” disse: “Êpa, na minha terra amarelo é cor alegre. Põe marrom, cor de merda!”. Foi uma grande idéia e colocamos na manchete “Imprensa marrom…” E colou! Fizemos uma campanha contra essa imprensa marrom e fechamos as revistas. Naquela época, o Carlos Lacerda, que foi um grande jornalista, era o governador do Estado da Guanabara, viu a campanha e nos deu apoio. Inclusive nós estávamos ameaçados de morte, ele colocou guarda-costas, e conseguimos fechar essas revistas. E a expressão ganhou força, hoje ela é tradicional, consta no Aurélio.

Ainda existe este tipo de imprensa?
Hoje, quando se quer designar um mau jornalismo, uma baixaria, chama-se de imprensa marrom. Mas não diria que existe uma imprensa caracteristicamente marrom. Existem lapsos marrons. E é uma expressão brasileira, porque até hoje se fala, em outros países, em yellow press. Nós é que criamos essa derivação cromática.

Como descobriu a Vila Madalena?
Morei em São Paulo nos anos 1950, quando comecei na profissão, depois voltei para o Rio e em 1982, vim para São Paulo novamente. E escolhi a Vila Madalena primeiramente como um lugar para dormir durante a semana. Depois, acabei me instalando aqui definitivamente, com minha mulher, que também é jornalista. Fomos morar na rua Jericó, num pequeno apartamento. Ainda não tinha edifícios aqui! Tinha apenas um, diante do Fórum [Regional de Pinheiros], próximo a um templo budista. De lá, me mudei para a rua Harmonia, onde estou até hoje.

O que mais chamou sua atenção no bairro?
A Vila Madalena tinha um ar muito carioca, descontraído e sossegado ao mesmo tempo. Era realmente um bairro sossegado. Com o passar dos anos a coisa foi ficando complicada. Há progresso, mas o progresso vem, inevitavelmente, acompanhado de retrocessos. Então, andar na calçada em algumas ruas já é impossível porque está ocupada por mesas, e ocupada de uma forma grosseira… Você tem que andar na rua. O negócio dos vallets e manobristas virou uma praga. Quer dizer, tem que se repensar isso. Tudo bem que o bairro tenha seus atrativos comerciais e virou um negócio legal do ponto de vista mundano, mas esses inconvenientes prejudicam a todos, inclusive vai chegar a afetar os próprios negócios.

O senhor acha que é possível reverter esse quadro?
Se houver uma associação de lojistas e encontrarem meios para criar uma auto-regulamentação… Eu não acredito em coisas impostas pelas autoridades, porque aí é mais multa e mais corrupção, e não dá certo. Mas se os comerciantes se reunirem e estudarem um jeito de evitar os excessos, eles vão encontrar soluções. É possível encontrar solução para qualquer tipo de problema desde que as pessoas se reúnam para conversar. E está ficando complicado! Para mim não, porque vou a pé para casa. Mas vejo outras pessoas reclamando. A Vila Madalena engarrafada às seis horas da tarde num dia de semana era impensável há dez anos! E também acho que os comerciantes não estão sabendo criar diversidade. É bar, é bar, é bar… Ou então restaurante. Lojas de móveis têm pouquíssimas; livraria tem somente a Livraria da Vila. Tem que trazer diversidades. O bairro ganhou em exposição, em rentabilidade, o metro quadrado aqui está caríssimo – já é comum ligarem para mim para saber se quero vender o meu apartamento -, então ficou tudo muito valorizado, mas tem um preço alto e eu acho que vai acabar desvalorizando. Já conhecemos outros casos de supervalorizações que acabaram afundando. As pessoas vão procurando outros lugares com mais qualidade de vida e de negócio. Em suma, são os males do progresso que podem ser evitados se houver conversa, disposição de resolver os problemas de uma forma coletiva, sem autoridade. Entrou autoridade, ferrou!

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