Parceria contra as drogas

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Há dez anos, um grupo de publicitários descobriu que poderia usar a força da comunicação para ajudar no combate às drogas. Nascia assim a Associação Parceria Contra Drogas (APCD), que tem como missão divulgar campanhas educativas de caráter preventivo, direcionada a jovens de todas as idades, além da população em geral.
Inúmeros voluntários participam das várias comissões que cuidam para que as campanhas sejam criadas e comunicadas à população de forma criteriosa e honesta e, ao mesmo tempo, interessante. Às vezes, chocantes, outras mais amenas, a propaganda deixa claras as conseqüências e o que a droga causa à pessoa e à sociedade.
As ações da APCD não param por aí. A organização não-governamental criou o Centro de Informações sobre Drogas (CID), mini blibliotecas que, por meio de parcerias, são doadas a instituições que realizam trabalhos de prevenção ao uso de drogas. Eles dão suporte e informação sobre a prevenção e o uso de drogas para a população. Cada CID é constituído por uma estante especialmente projetada para acomodar um televisor, um aparelho de vídeo, um computador e 32 livros sobre o tema produzidos pela Secretaria Nacional Antidrogas e centro de estudo com Cebrid, Unifesp, Grea, Abead. Os CIDs possuem ainda 23 vídeos produzidos pela APCD com depoimentos de dependentes em recuperação e familiares, além de palestras que ajudam na prevenção e combate ao uso de drogas.
Em março, a Subprefeitura de Pinheiros, bairro onde está localizada a sede da ONG, recebeu o seu Centro de Informações. Essa parceria busca o desenvolvimento de programas na linha de responsabilidade social e cidadania em conjunto com a Diretoria de Programas de Qualidade de Vida da Secretaria de Coordenação das Subprefeituras. Atualmente, São Paulo conta com 31 subprefeituras e para que o projeto avance é necessário o apoio da iniciativa privada. Para falar sobre a Associação e sobre o CID, o Guia da Vila Madalena entrevistou Paulo Heise, presidente da APCD. Segundo ele, “a educação sobre o uso de drogas é garantia de combate preventivo ao narcotráfico, fortalecendo a noção de cidadania nas novas gerações e afastando, principalmente, as crianças e adolescentes dos entorpecentes. A participação da comunidade local em tal educação e o engajamento dos diversos setores da sociedade civil constitui um passo essencial para a afirmação da dignidade da pessoa humana, sendo esse um dos princípios fundamentais da República”.
Vale lembrar que qualquer empresa pode patrocinar um CID e ter sua marca associada a uma ação de responsabilidade social da maior relevância para pais e educadores das cidades onde estão instaladas. Confira!

Quais as vantagens do CID?
Doamos isso para entidades que irão fazer um trabalho reconhecidamente honesto. No interior, por exemplo, se tem pouco acesso à informação. Já temos cerca de 20 bibliotecas distribuídas de Porto Alegre a Recife. As subprefeituras de São Paulo foram escolhidas porque o médico Luis Alberto Chaves de Oliveira, que trabalha na prefeitura nessa área, é colaborador da parceria há muitos anos, faz parte da comissão técnica. Ele assumiu essa tarefa e percebeu a importância para a subprefeitura se cada uma tivesse um CID. Ele fica instalado em um local onde a população vem a toda hora e toma conhecimento do Centro. A idéia é que cada uma tenha um CID. Quando fazemos a doação verificamos se entidade está preparada para receber.

De que maneira a propaganda pode ajudar a prevenir e a combater o uso de drogas?
A propaganda tem força para criar moda, mudar comportamentos, então pode ajudar a combater o uso de drogas. A missão básica da parceria é aumentar a consciência da população de modo em geral para os riscos de envolvimento com drogas, para que as pessoas possam decidir ou não se irão se envolver com drogas. Nossa missão é informar e transformar essa informação em matéria publicitária, de uma forma que tenha impacto para atingir as pessoas.

Nesses dez anos, quais os resultados alcançados?
É difícil apontar um resultado específico das ações, desde as ações feitas por Brasília, pela Secretaria Nacional de Drogas, até uma pessoa em Itaquera ou na Vila Madalena que faz visita em casa, vai a escolas fazer palestras. É difícil quantificar o resultado daquele trabalho. Mas o que pretendemos é que com a soma de tudo isso que fazemos – a Secretaria Nacional de Drogas, a parceria e os agentes comunitários -, o Brasil consiga se manter em níveis relativamente baixos de envolvimento com drogas. Comparado com Europa e Estados Unidos o envolvimento com drogas no Brasil é relativamente pequeno. Embora seja preocupante, claro, mas não atinge níveis alarmantes como no Hemisfério Norte.

Quando lançaram as primeiras campanhas há dez anos, qual foi o impacto?
O principal impacto gerado pela campanha foi o fato de que existia um movimento claramente veiculado pelas grandes cadeias de televisão e que havia uma preocupação em âmbito nacional sobre o assunto. Isso fez com que muitas pessoas e entidades passassem a desenvolver programas também contra drogas e tirou da inércia aquelas pessoas que achavam que ninguém fazia nada a respeito, o “quem sou eu sozinho para fazer alguma coisa na minha cidade”. A partir da visibilidade das campanhas ela foi percebida como um movimento forte e grande que muitas pessoas pensaram que fosse do governo. Elas foram encorajadas a assumir alguns programas na sua própria localidade. O primeiro grande efeito foi conseguir motivar a sociedade, trazer esse assunto para a pauta. O segundo efeito foi de fato a eficiência da comunicação. É muito difícil localizar qual propaganda causou qual efeito. A somatória disso é como um processo de educação. Você não decide usar droga da noite para o dia. Não é vendo uma propaganda ou uma conversa que você toma essa decisão. Aquilo vai se incorporando a você desde que é criança. Então, a campanha é um processo de educação que demora uma geração para ser passado.

Muitas das propagandas contêm imagens fortes. Você considera que esse tipo de impacto é benéfico, ajuda a assimilar a mensagem?
Eu posso comparar isso com o nível de impacto que você provoca quando educa seus filhos. Às vezes, você dá um tapa, grita com a criança, alerta para o perigo iminente. Isso tem impacto maior do que uma conversa doce. Cada uma tem o seu espaço e seu tempo. Uma hora você tem que conversar tranqüilamente, em outras você tem que dar a bronca. E na propaganda tem um pouco disso também. Hora damos um pontapé um pouco mais forte, hora somos mais meigos, por exemplo quando aparece a Eliana falando para as crianças, ou a Xuxa falando do bebê que vai nascer.

Que campanhas criadas pela APCD você destacaria?
Uma fase da campanha que foi especialmente importante para nós foi quando abordamos um outro lado da questão que é a cidadania. Ou seja, vínhamos alertando para o problema que o indivíduo pode ter se usar drogas. Os riscos, os males que a droga causa para a pessoa e para a família, sempre do ponto de vista da saúde. E decidimos que estava na hora de abordar uma outra questão que era a cidadania. Se você não se importa com a sua saúde, tudo bem, é problema seu. Mas na hora em que compra a droga você financia o traficante. O assédio que ele vai fazer é sua responsabilidade. O que você faz com o seu dinheiro é problema seu, agora o que o traficante faz com seu dinheiro já não é só problema seu, pois atinge outras pessoas.

Entra na questão da responsabilidade social?
Exatamente. E isso teve uma repercussão tamanha que fizemos uma pesquisa com o Ibope para entender as pessoas, as famílias, se esse argumento era razoável ou se era forte. E tivemos uma aceitação de 20% da população dizendo que conhecia alguém que deixou de usar drogas por causa das propagandas. É uma avaliação muito forte, muito concreta do resultado de uma campanha. Só que, embora isso continue sendo importante, neste ano estamos buscando uma abordagem um pouco diferente para voltar a falar de prevenção. Se você educar seu filho direitinho, ele não irá fazer uso de drogas e nem será mentiroso, nem corrupto ou corruptor. Ele não será um agente anti-social. E a droga é apenas uma dessas coisas. Então, o essencial é a educação.

Fonte: revista da APCD

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