O TIC TAC DO TROMBONE

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GVM NOV 21

Lúcio Rangel, pesquisador, jornalista e crítico musical completaria hoje 102 anos. Tio do cronista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Fervoroso defensor do samba e do choro, Lúcio foi quem apresentou Tom Jobim a Vinícius de Moraes para sua peça Orfeu da Conceição, na década de 50. Também conviveu com toda uma geração de músicos, intelectuais e artistas brasileiros, como Graciliano Ramos, Manoel Bandeira, Cartola, Ary Barroso, Millôr, Pixinguinha, Di Cavalcanti. Mas enfim, essa figura era íntimo mesmo das noites cariocas e seus bares, um boêmio incurável.

Solano Ribeiro, um dos principais organizadores dos festivais de música das décadas de 60 e 70. Num papo de balcão recente no Pira Grill, entre tantas outras lembranças curiosas, contou passagens e fatos dos bastidores que transbordavam a todos de alegrias e expectativas pela intensa vida cultural daquele momento. A própria casa do Roberto Freire, o Bigode, era mais que uma casa. Era o local de encontro dos jovens universitários de vários cursos, obviamente contrários à ditadura vigente e interessados em participar de festivais, da inauguração do Tuca, da primeira peça: Morte e Vida Severina, dos primeiros passos e do tudo a ser feito, enquanto o regime endurecia com sua mão de ferro. A poucas quadras dali havia também a casa de Sérgio Buarque de Holanda, pai do Chico Buarque. Recebia a mesma quantidade e qualidade de gente, jovens estudantes que na época ainda não eram o que cada um viria a ser.

Solano ao final da conversa, após perguntar-me das horas, lembrou-se de mais uma. Certa noite na casa do Lúcio Rangel, um dos últimos convidados ainda presentes, já bem envolvido pelo álcool e preocupado com as horas, perguntou ao anfitrião que horas eram. Lúcio respondeu que não havia relógio, mas que tinha um trombone. “Como um trombone? Quero saber as horas!”. Lúcio respondeu que era simples. Levantou-se, abriu a janela, pegou o trombone e assoprou uma nota. O vizinho gritou: “Guarda essa merda que já são duas e quinze da manhã, caraca!”.
pedrocosta.pira@uol.com.br

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