Comunicação: um problema?

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Kelly Monteiro

A tecnologia gera um dos dilemas do século 21: como se comunicar com o outro. Vivemos numa época em que somos bombardeados pelas mais diversas informações sobre tudo e a todo momento. A variedade de opções do que fazer, aonde ir e com quem se relacionar nos deixa, muitas vezes, perdidos. Como resultado, pessoas cada vez mais isoladas em si mesmas, vivendo de uma maneira que beira o artificialismo.
É assim que surgem os problemas de comunicação. Se eu não me conheço, como posso conhecer o outro e me relacionar com ele? Até que ponto a internet e suas ferramentas são benéficas para o convívio social? E como a vida em um bairro como a Vila Madalena, que ainda preserva características interioranas, apesar da intensa verticalização, pode facilitar os relacionamentos humanos?
Pensando no quanto às pessoas deveriam desfrutar do que o bairro tem a oferecer, inclusive sobre a possibilidade de deixar o computador um pouco de lado para conhecer pessoas “reais”, vale lembrar de uma reportagem da revista Veja São Paulo*, publicada em julho. Segundo a matéria, “no site de relacionamentos Orkut, a maior comunidade de amantes da Vila Olímpia reúne mais de 76 mil pessoas, cinco vezes mais que os apaixonados pela Vila Madalena” (veja box). O que isso quer dizer? As pessoas circulam pelas ruas, conhecem mesmo o lugar onde moram, ou apenas freqüentam os lugares da moda, quando freqüentam? Encontram-se umas com as outras no melhor sentido do verbo, ou mesmo num local como a Vila Madalena ainda permanecem no seu próprio mundo usando artifícios para se comunicar?
Segundo a psicóloga Solveig Isabel Milharcic é preciso resgatar a valorização do contato pessoal, dos olhos nos olhos, do sentir o outro de verdade. Ou seja, reaprender a se comunicar. Confira a entrevista com Solveig, que cresceu e estudou na Vila Madalena, e hoje é psicóloga especialista em dependência química e em disfunções da sexualidade.

As novas formas de comunicação – internet, mensagens instantâneas, Orkut -, alteraram a maneira como as pessoas se relacionam?
A internet é um meio de comunicação que, ao mesmo tempo em que facilita a comunicação, porque é muito mais rápida, prejudica as relações interpessoais. Ou seja, o olho no olho, o sentir o outro, expressar afetividade e as emoções. Isso é uma coisa que estamos observando, principalmente porque há uma demanda muito grande de queixas no consultório nos últimos dez anos. As pessoas não sabem se comunicar. “Como é que eu encontro um namorado?”. É grande queixa da maioria das meninas de 18, 19 anos que querem começar a namorar. Todo mundo só fica e não consegue ter uma relação, não se namora mais. “Ah, beijei uns 30!” Mas quem eu beijei? As pessoas falam com outras 20 pessoas no MSN de uma vez só. Eu recebo em torno de 50 e-mails por dia. Leio todos? Não. Eu “deleto” 90%? Sim. Porque não dá para dar conta disso tudo. Imagina um adolescente de 17, 18, 19 anos que teoricamente está aprendendo a se comunicar e a se relacionar e que não se relaciona de verdade porque perde o dia inteiro na frente do computador. Recentemente teve uma pesquisa sobre os jovens que jogam muito vídeo game. O organismo deles produz uma substância que é prazerosa e que cria dependência. É igual a uma dependência química. E o computador causa esse mesmo efeito. Muita gente passa horas no bate papo na internet. E aí você pergunta para uma pessoa dessas por que ela não vai a um barzinho para sentar e conversar com alguém. E ela responde: “Não, é muito mais legal conversar pela internet!” Por que? “Ah, porque eu converso com 40 pessoas”. Mas quem são? “Não sei”.

Esse vício por bate-papo na internet também é característica de muitos adultos, e não só de adolescentes.
Sim. Há muitos adultos que não conseguem se relacionar, ter uma parceria, principalmente mulheres em torno de 45, 50 anos. Um programa na Rede Globo, o Linha Direta, mostrou uma das conseqüências dessas relações via internet. Um homem, psicopata, conhecia mulheres pela internet e aproveitava para assalta-las. Que tipo de ser humano está susceptível a isso? Uma babá, de cerca de 17 anos, foi quem percebeu que o cara tinha algum problema e o denunciou. Por que a babá, que é novinha, percebeu, e mulheres mais velhas e sozinhas não notaram que o cara era um psicopata? Será que foi porque era uma babá, ou seja, uma pessoa que lida com crianças, tem um relacionamento interpessoal, de troca, de conhecimento, de emoção constante com elas. Quem tem essa interação diária, desenvolve uma sensibilidade muito maior.

A exposição na internet de dados pessoais, fotos e até mesmo de idéias podem propiciar esse tipo de psicopatia?
Favorece sim. Tudo na vida tem seu lado positivo e negativo. Quando a gente utiliza alguma coisa de forma extrema, é óbvio que se torna negativo. Por exemplo, o chocolate é uma coisa boa, mas em grande quantidade pode ser prejudicial à saúde. A grande dificuldade do ser humano é saber mediar as coisas. E muitos dos perfis colocados na internet, em sites como Orkut, entre outros, não são verdadeiros. Colocam até fotos que não são verdadeiras. As pessoas mentem para atrair alguém.

Que tipo de pessoa se esconde por trás dessas mentiras?
Pessoas que têm dificuldade de relacionamento interpessoal. Ou seja, são pessoas de todos os tipos que se pode imaginar, de diferentes níveis sócio-econômico e cultural. Por exemplo, tenho um paciente homossexual masculino, beirando os 50 anos, que nunca conseguiu estabelecer um relacionamento. Ele se inscreveu em um site de relacionamentos. Depois que começou a terapia, saiu do site e conseguiu um namorado pela primeira vez na vida. Tenho também uma senhora, cardiopata, que foi doente por anos. Ela foi transplantada aos 40 e poucos anos e passou a ter um novo estilo de vida. Ela queria se sociabilizar e acabou vendo na internet um meio para isso. Também se inscreveu num site de relacionamentos e não se deu bem, teve problemas. Um cara roubou-a, vários a desprezaram. Quando ela mandava foto verdadeira, muitas pessoas nem sequer falavam mais com ela.

Ou seja, as pessoas passam a ser descartáveis, não se enxerga o ser humano por trás da tela do computador?
Sim, já que tem tanta opção… Mas aí é que está: opção do quê? Até vemos, na mídia, que fulano conheceu sicrano pela internet e casou. Mas gostaria de ver uma estatística. É um ou outro caso e a mídia coloca em evidência. Percebo que a maior dificuldade do ser humano é conseguir parar para pensar em si e se conhecer. Só eu fazendo isso é que consigo me relacionar com o outro. Todo mundo está muito preocupado com o externo, com a aparência, com os fatos, com o poder aquisitivo, com produtividade. A pessoa tem que produzir ao extremo senão ela não é nada! E daí advém, inclusive, a maioria das disfunções da sexualidade. O homem tem que ter uma ereção de nove horas e a mulher tem que ter orgasmos múltiplos! Isso não existe, não é do ser humano! O carinho, o amor, o companheirismo, a cumplicidade não valem nada? Há remédios que prometem ereção de 12 horas, coisas absurdas. Isso causa disfunções eréteis. Meninos que estão em fase de descoberta sexual podem abusar destes remédios. Eles ficam ansiosos, com medo de não ter uma ereção. E ansiedade é broxante. Necessariamente, a primeira transa não é uma loucura. As revistas para o público adolescente, hoje, se assemelham a uma revista pornô. Têm descrição de transa, do que é um orgasmo, têm meninas contando quantos caras beijou, transou… É assim! E são revistas para meninas de 13, 14 anos. Introduz-se o sexo antes de mostrar o que é carinho, conhecimento. Coloca-se o sexo como muito mais importante. A preocupação das meninas é como fazer bem sexo oral. Isso é preocupação de uma menina de 14 anos, por exemplo?

O que fazer para recuperar o senso de humanidade e reaprender se relacionar?
Essa necessidade está começando a vir à tona. Há muitos distúrbios em evidência. A psiquiatria é a área de medicina atualmente que mais corre atrás de se desenvolver. Nos laboratórios farmacolágicos a pesquisa maciça é muito em cima do que pode ser criado de remédio para que não haja mais dependência química. Mas o problema vem do querer pessoal, voluntário. E a gente está se distanciando disso. Por que a doença do século é a depressão? Não há quem não conheça alguém que tome antidepressivo. Pelo sim, pelo não, até o ginecologista receita! Veja: o ginecologista receita. E de forma indiscriminada. Não se tem mais o direito de ficar triste. É preciso que alguma coisa me livre da tristeza rapidamente. Sentir tristeza não pode porque me torno improdutivo. Tenho um paciente que perdeu a mãe e queria tomar antidepressivo. Ele não se achava no direito de ficar triste, de sofrer. Disse para mim que todo mundo que ele conhecia e que estava passando por uma grande perda ia ao psiquiatra.

Virou moda?
Sim, virou moda. E uma coisa leva a outra. A pessoa esquece que tem instinto, necessidades, que tem um corpo, sentimentos, emoções, e fica tudo mecanizado. Até as relações interpessoais viram relações via internet.

Como os pais e educadores devem agir para que as crianças aprendam a se relacionar melhor com os outros?
Para criança tem que se impor regra e tem que ter tempo. Proibir não funciona, mas sim conduzir. Tem que verificar que tipo de site a criança ou adolescente está acessando

Você acha que a Vila Madalena, pelas suas características, favorece as relações interpessoais, aproxima mais as pessoas umas das outras?
Sim. A Vila é um bairro com muitas casas, onde os vizinhos se conhecem. Entretanto, o bairro está se modificando, tem muitas construções de prédios. Eu sempre morei no bairro e quando eu estudava na Vila só havia casas. A vida em condomínios, de certa forma, vai fazendo com que as pessoas se relacionem menos. Apesar de que nos condomínios onde tem crianças as famílias interagem. Eu vejo muito por mim. Antes de ter filhos, eu não conhecia ninguém no prédio. Hoje, que tenho duas meninas e conheço todo mundo, apesar de ser a mãe da Laura e da Luisa! Isso é normal! E a Vila Madalena por ser um bairro de casas que não são mansões, de pessoas que tem um poder aquisitivo não tão alto, faz com que elas se relacionem mais.

Quanto maior o poder aquisitivo, menos disponibilidade para se relacionar?
Sim, elas se fecham mais, se isolam no próprio mundo, tem seguranças, o que diminui a intimidade; não podem se expor muito com medo de serem seqüestradas. Enquanto isso, vê-se a organização das favelas, onde as pessoas conseguem se relacionar e viver mais em sociedade.

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