GVM nov19 — Pedro Costa — O primo Antonico

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Duas lindas e únicas irmãs amamentavam seus bebês sempre à sombra de uma árvore. A capital do Brasil ainda era no Rio de Janeiro, e Juscelino recém empossado começava a desenhar a nova capital. Aqui em São Paulo, as indústrias seguiam a todo vapor. Proliferavam os bairros operários e os navios de imigrantes chegavam cada vez em maior número ao porto de Santos.

As jovens irmãs descendentes de italianos, revezavam aqueles dois bebês dando de mamar, ora em uma, ora em outra, enquanto trocavam ideias sobre a vida de cada uma e dos novos astros de Hollywood, Clark Gable, Paul Newman, James Dean e afins. Iam crescendo os dois meninos, mais que irmãos de sangue e de leite, amigos. Desde então, nos víamos sempre nas férias escolares, quando os tios vinham do interior para a capital ou quando não vinham, nossa avó nos levava de trem, viagem que durava mais de doze horas. Belas viagens, no trem que partia da Estação da Luz pouco antes do sol nascer. Daí o que mais gostávamos era tomar leite fresco na mangueira da fazenda ainda de madrugada, andar a cavalo o dia todo e ouvir estórias do boiadeiro da fazenda, ao pé do fogão de lenha, da Mula sem-cabeça, do Capeta, Curupira. Depois ríamos de medo, saindo correndo na noite escura de volta para a sede para dormir. E na cidade grande, já adolescentes, íamos remar no Ibirapuera e depois pegar uma matinê com as vizinhas do pai ciumento.

Num destes momentos do passado, Antonico me enviou por carta, que trocávamos sempre, um bilhete escrito num papel recortado a mão e colado encima de um pedaço de caderno que dizia: “Guarde este para a posteridade” com a recomendação que nunca descolasse um papel do outro. Assim guardei por mais de trinta anos. Um dia, depois de um tempo sem nos ver, resolvi devolver a ele e disse: “Zele agora você por ele, guardei-o até hoje”. Antonico viu surpreso e quieto aquele bilhetinho da infância. Quando lhe perguntei o que havia realmente por baixo do papel colado ele respondeu: “Nada”.

Mesmo após a ditadura terminar, mais um desaparece. O Saci, o Curupira e a Mula sem Cabeça o arrastaram para dentro da mata e nunca mais tivemos notícias. Naquele momento, concluímos mudos o que parecia um inquérito ou um flagrante, no qual aquele senhor grisalho, vulgo Dr. Antonico, permitiu, por medo ou conveniência, encobertar o desaparecimento do menino que um dia foi.

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