Pedro Costa, GVM set/19: O bigode que não aceitava tosa

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Para quem conheceu Maromba em Visconde de Mauá, suas cachoeiras e a Pedra do Escorrega na década de setenta se lembrará da antiga Pousada do Tiatiaim do escritor, ativista cultural e psicanalista Roberto Freire, que lá criou a Soma, uma terapia anarquista, onde ministrou cursos para inúmeros grupos de jovens de todo o Brasil, a maioria traumatizada e travada pela repressão do golpe militar que durou vinte anos. Ali vencemos o medo e restauramos em nós os sonhos frustrados, o tempo perdido e a fala interrompida.

De repente, já na virada do milênio, não mais que de repente, Tiatiaim queimava seus eucaliptos estruturais, ardia fogo quente em plena serra nebulosa do frio. A fumaça do fogo com a neblina da serra. Fez-se um pranto. Sonhos em chamas, desejos ardentes ao léu. No vento que soprava arredio e violento fazia vigas virarem lenhas ardentes rapidamente. Labaredas se alimentavam do vento que consumia eucaliptos eretos aos céus, impune e indiferente à destruição e sua queima. Aquele casarão de pinho agora era apenas uma enorme fogueira insana.

Uma vela tombou sobre o criado mudo. Foi uma possível causa, a outra um incêndio proposital não comprovado. De qualquer forma morria ali um sonho, um arquétipo do amor possível. Era o enterro sob cinzas da Pousada do Tiatiaim, em Visconde de Mauá.

Nunca mais Roberto Freire voltou a ser o mesmo Bigode e surgia daí, tenho certeza, um novo cara que renascia das cinzas. Ou das cinzas surgia um novo homem, sabe-se lá. A partir daí, pra ele, Visconde de Mauá havia se evaporado por inteiro. A cidade grande passou de novo a desenhar seu leme num novo rumo. Seu passado recente estava em cinzas. Este ano completa onze anos do seu falecimento. Deixou-nos este legado: É o amor e não a vida o contrário da morte.

“A vida pode doer muito, mas quando a gente sabe que a dor faz parte da luta maior e de sempre, pelo que justifica viver, quando aprendemos (sempre a revelia) que as coisas existem para acabar e que outras já nascem para viver pouco e o que prevalece são os saldos de alegria e de amor, apesar de tudo”.

pedrocosta.pira@uol.com.br

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