Racismo no shopping

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Foto: Tiago Gonçalves

Tiago Gonçalves
Enio Squeff em seu ateliê na Vila Madalena.

O filho adotivo do artista plástico Enio Squeff foi alvo de racismo em um shopping center. Nesta conversa, ele conta como aconteceu e o aprendizado que fica.

O gaúcho Enio Squeff, artista plástico que tem seu estúdio na Vila Madalena conta que no início de junho, depois de buscar o filho de sete anos no Colégio Sion, foi tomar um chá “que meu filho adora chá” em um dos cafés do Shopping Pátio Higienópolis, “como fazemos regularmente”. Ele prossegue “que estava esperando meu filho tomar o chá dele quando uma agente de segurança do shopping se aproximou de mim e perguntou: “se a criança estava me incomodando”. Surpreso Enio quis saber o motivo e a agente de segurança explicou “que tinha ordens para não deixar ‘pedintes crianças’ molestar os clientes do shopping. Não precisou explicar mais nada”, conta Enio. Em seguida, ele apontou para o filho e perguntou à segurança “se ela o considerava um pedinte por ser negro”. Ele lembra que o filho estava trajando o uniforme do Colégio Sion, onde ele estuda. “Ela viu a cor da pele dele e não o uniforme dele”, conclui.

Enio narra que quando questionou a segurança e ela percebeu que ele era o pai do menino, “ela pediu desculpas e disse que não tinha tido a intenção de me ofender. E para corroborar a extensão de seu pedido de perdão, disse que ela também era negra, o que não a desmentia, mas que recebia ordens”. Enio insistiu e perguntou se a direção do shopping tinha lhe dado ordens de expulsar meninos negros ,daquele centro de compras em Higienópolis? “Depois de mais uns três pedidos de desculpa, disse-lhe que se alguém devia desculpas era ela para si mesma e para sua família”. Enio lembrou da Alemanha nazista, “quando os carrascos que massacraram os judeus, justificavam seus atos, por estar cumprindo ordens”. Pela situação o artista pensou em denunciar a agressão que o filho foi vítima à administração do shopping mas achou que “a única a ser punida seria a segurança” e resolveu deixar para lá.

Dias depois, Enio resolveu escrever um texto onde narrou o que tinha acontecido. O texto foi publicado na sua página do Facebook e em poucos dias já tinha sido visualizado e compartilhado por muita gente, conhecidos ou não. “Como jornalista e cidadão me senti na obrigação de contar o que havia acontecido com meu filho e não poderia ficar calado. Deve ter muita gente que sofre o mesmo tipo de agressão e acaba ficando quieto. A solidariedade de muitos amigos e conhecidos me deixou emocionado. Foram mais de 110 mil visualizações em poucos dias. Apesar de ter uns e outros que me acusaram de estar usando meu filho para tirar algum proveito”, diz.

A publicação do texto de Enio no Facebook, chamou a atenção da colunista Monica Bérgamo, da Folha de S. Paulo que pediu autorização para publicar uma nota sobre o ocorrido. Enio concordou e conta que nos dias seguintes, passou boa parte do dia atendendo jornalistas de todos os veículos – rádio, TV, jornais, sites de notícias para contar sua versão. “A única exigência que fiz a quem me procurou foi de não permitir que meu filho fosse entrevistado ou fotografado”, explica.

Com toda essa repercussão, advogados do Shopping Patio Higienópolis procuraram Enio para uma reunião. “Fui à reunião com a minha advogada e minha expectativa era que eles se desculpassem pelo ocorrido. Mas ao contrário disso, os advogados se limitaram a ler conceitos básicos ‘não somos racistas e nem descriminamos nenhum tipo de pessoa, etc e que a funcionária passaria por reciclagem para que isso não voltasse a acontecer…’. Senti que perdemos nosso tempo. E em nenhum momento, eles, se desculparam pelo ocorrido”.

O fato ocorrido com o filho de Enio deu início a uma investigação por parte do Ministério Público de São Paulo que passou a investigar quaisquer casos de discriminação por parte do Shopping Pátio Higienópolis. Enio lembra que em 2012, o shopping foi invadido por manifestantes que protestavam por outras ações de racismo verificado naquele centro comercial. “É necessário que as pessoas que tenham testemunhado ou sofrido discriminações naquele shopping se manifestem. O endereço do Ministério Público de São Paulo é: inclusaosocial@mpsp.mp.br”, informa.

O artista plástico conta que sempre teve amigos de todas as raças e sem nenhum tipo de preconceito. “A parte boa deste episódio é que toda a minha família, que sempre foi unida, e principalmente meus filhos maiores, que são adultos, ficaram mais próximos dele, assim como meus netos, que são de idades próximas a dele”.

Para Enio, para que isso não aconteça mais recomenda que se denuncie pessoas ou empresas que praticam o racismo ou outro tipo de discriminação. “Não dá para ficar calado!”, conclui.

OUTRO LADO — Solicitado a comentar sobre o ocorrido, o Shopping Pátio Higienópolis enviou a seguinte nota, através da sua assessoria de imprensa: “O Shopping Pátio Higienópolis reitera que todos os frequentadores são e serão sempre bem-vindos, sem qualquer tipo de discriminação. O empreendimento lamenta profundamente pelo fato isolado ocorrido, destaca que não compactua com este tipo de procedimento e esclarece ainda que reorientou a colaboradora envolvida”. 

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