Mediunidade ou neurose?

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Não é nada fácil a tarefa de utilizar bem este espaço, trazendo sempre textos relevantes e agradáveis de se ler. Para dificultar minha missão, nos últimos dias, meu raciocínio vem sendo insistentemente quebrado por uma presença inusitada. Quando tento falar sobre as mazelas da nossa república, Ruy Barbosa aparece cochichando algum comentário: “De tanto ver triunfar as nulidades…”, disserta o intelectual soteropolitano, ostentando seu impecável bigode, sentado na sua cadeira de presidente da Academia Brasileira de Letras.

Fui até consultar o Mineiro, que me diagnosticou: “com a goleada da Portuguesa sobre o Corinthians, acho que você está à beira de um ataque de nervos”. Também conversei com o Edmundo, que se posicionou de forma diferente, achando que a situação brasileira está tão grave que o nosso constitucionalista maior resolveu sair da sua calma eterna para me aconselhar.

– Ele foi um abolicionista, e veja a situação dos quilombolas! Também deve ter ficado sabendo dos últimos acontecimentos envolvendo a Comissão de Direitos Humanos na Câmara dos Deputados e resolveu despertar. Jurista que era, deve ter ficado estarrecido com o julgamento do mensalão e, como político, deve ter se revirado ao saber do deputado preso, condenado e com seu mandato mantido – disparou Edmundo, demonstrando todo conhecimento da obra de Ruy Barbosa.

– Calma, Edmundo, não sabia que você tinha essa paixão toda pela vida dele! Queria apenas discutir com você essa intromissão indevida sobre a minha crônica. Justo eu, que não vejo visagem, não ouço vozes, tendo que lidar com essa situação… Eu, que estive sempre mais perto de Castro Alves e de Luiz Gama do que de Ruy Barbosa, que acho lamentável ter sido queimado todo arquivo sobre a escravatura no Brasil por uma ordem sua… Logo eu… – respondi, desolado.

Analisando os fatos, tento chegar a uma conclusão sobre meu caso. Das duas uma: ou a situação republicana está tão ruim que foi capaz de ressuscitar Ruy Barbosa, ou estou precisando ouvir melhor os conselhos psicanalíticos do Mineiro. O que será, mediunidade ou neurose?

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